ENIF 2025-2027 aprovada por decreto presidencial define mulheres, população rural e trabalhadores informais como segmentos prioritários; KWiK processou 35 milhões de transferências em 2025. Fintechs e banca devem actuar em parceria, não em concorrência, para atingir quem ainda movimenta apenas dinheiro físico
Apenas 36% dos angolanos têm contas bancárias e 40% utilizam serviços financeiros formais, segundo dados do World Bank Enterprise Survey de 2024. Os 64% restantes — maioritariamente mulheres, população rural, trabalhadores informais, agricultores e jovens — constituem o público-alvo da Estratégia Nacional de Inclusão Financeira (ENIF) 2025-2027, aprovada pelo Decreto Presidencial n.º 237/25, de 18 de Novembro, e lançada publicamente a 5 de Dezembro de 2025. O documento, elaborado com o suporte técnico do Banco Mundial e submetido a consulta pública entre Março e Abril de 2025, estrutura-se em quatro pilares e define os pagamentos digitais e o KWiK — sistema de transferências instantâneas em kwanzas da EMIS — como os principais catalisadores do alargamento do acesso financeiro.
O Índice de Inclusão Financeira (IIF) do BNA, que mede o acesso, uso e qualidade dos serviços financeiros, situou-se em 49,97% em 2025, subindo 0,32 pontos percentuais face ao ano anterior — uma progressão lenta que evidencia a magnitude do desafio. O governador Manuel António Tiago Dias reconheceu na IV Angola Banking Conference, realizada a 27 de Maio em Luanda, que a confiança dos angolanos no sistema bancário depende de avanços concretos: “O que vai trazer a confiança dos angolanos no seu dinheiro é quando eles puderem movimentá-lo por plataformas digitais e não terem que andar com dinheiro físico todos os dias. Falamos de tornar mais fáceis e competitivos os TPA, de poderem fazer pagamentos móveis com o telemóvel com código QR.”
Os números do KWiK documentam a aceleração em curso. Em 2025, o sistema processou 35.000.724 transferências no valor de 590,36 mil milhões de kwanzas, com crescimento superior a 1.000% em volume e de 725,4% em valor face a 2024, segundo o Relatório Anual do BNA. O valor médio de cada transferência cifrou-se em cerca de 17.000 kwanzas, sinalizando a natureza essencialmente transaccional e de pequeno montante das operações — característica de uma base de utilizadores que começa a entrar no sistema financeiro. O número total de contas registadas no sistema atingiu 23.974.751, maioritariamente associadas a IBAN e número de telemóvel.
Uma geração que aprende a movimentar dinheiro sem entrar numa agência
A IV Angola Banking Conference tornou visível a tensão entre o ritmo da digitalização e a dimensão do desafio de inclusão. Tito Tavares, sócio da PwC, identificou na sessão de abertura o perfil do novo consumidor financeiro: “O cliente de hoje é mais jovem, mais digital, mais exigente e em larga medida não vê a banca tradicional como o seu primeiro destino financeiro. Em África e em Angola em particular, há uma geração que está a aprender a movimentar dinheiro através do telemóvel, sem nunca ter entrado numa agência bancária.” O sistema financeiro conta com 7.043 agentes bancários e 1.407 agências distribuídos pelo território nacional — uma rede insuficiente para alcançar as 18 províncias de um país com mais de 35 milhões de habitantes.
Em paralelo, persistem obstáculos operacionais que travam a expansão digital. A taxa de bancarização de 36% é parcialmente explicada pela desconfiança nos serviços digitais, alimentada por falhas de sistema e filas nas agências que a conferência abordou com frankeza. Um representante da PwC presente na sessão de entrevistas colocou o problema directamente: “Como é que se pode já avançar para a inteligência artificial quando ainda nos deparamos diariamente com muitos problemas de sistema, com enchentes nos bancos por falta de sistemas?” O investimento em infraestrutura de dados robusta — data warehouses com informação disponível em tempo real — foi identificado como condição prévia à digitalização sustentada.
KWiK, fintechs e banca: parceria como modelo
O debate sobre o papel das fintechs na inclusão financeira foi um dos mais substantivos da conferência. O consenso entre os executivos presentes foi claro: a relação entre banca e fintechs deve assentar em parceria e não em concorrência. Osvaldo Macaia, do Banco Sol, usou uma metáfora precisa: “Os bancos ao lado das fintechs são como porta-aviões e as fintechs como iates rápidos. Enquanto os bancos fazem a jornada de transformação digital que leva tempo, as fintechs foram fundadas sobre o digital, daí que esta eficiência e agilidade estão na sua génese.” A abordagem proposta foi a de os bancos transformarem os seus modelos de negócio numa infraestrutura de distribuição de crédito capaz de escalar os pagamentos digitais com custo unitário baixo, em parceria com as fintechs e não contra elas.
Paulo Alves, outro participante do painel, destacou o KWiK como o instrumento de intercâmbio transaccional que viabiliza esta integração: “O KWiK vai permitir que exista o intercâmbio transaccional entre banca e não banca, com um intermediário que garanta que existe um modelo de negócio sustentável e que as boas práticas sejam aplicadas em ambas as direcções.” O FMI corrobora a prioridade, recomendando no Memorando Económico de Angola o desenvolvimento de redes de agentes financeiros e pagamentos móveis, o reforço do quadro regulamentar para a prestação de serviços financeiros digitais e a melhoria da literacia financeira e da protecção dos consumidores como as três medidas de maior impacto na inclusão financeira.
A ENIF 2025-2027 em síntese
A Estratégia Nacional de Inclusão Financeira 2025-2027, aprovada pelo Decreto Presidencial n.º 237/25 de 18 de Novembro e lançada publicamente a 5 de Dezembro de 2025, estrutura-se em quatro pilares alinhados ao Plano de Desenvolvimento Nacional e aos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Os segmentos prioritários são as mulheres, a população rural, os trabalhadores agrícolas e informais, os adolescentes e os jovens — definidos como os grupos menos atendidos pelo sistema financeiro formal. Os catalisadores identificados são os pagamentos digitais, o microcrédito, os microsseguros e o financiamento às micro, pequenas e médias empresas. O documento foi elaborado com o suporte técnico do Banco Mundial e submetido a consulta pública entre Março e Abril de 2025. Fonte: Relatório Anual e Contas do BNA — 2025.





