Profissionais deixam de preencher campos manualmente e passam a validar informação no portal da AGT. OCPCA e AGT rejeitam ideia de substituição tecnológica e sublinham continuidade das equipas
A introdução da faturação electrónica em Angola reacendeu um debate recorrente sempre que uma inovação tecnológica chega ao mercado de trabalho: a digitalização vai eliminar postos de trabalho? No caso dos contabilistas e peritos contabilistas angolanos, a resposta das instituições que representam a classe e da própria Administração Geral Tributária (AGT) é inequívoca — não. Mas com uma ressalva importante: o trabalho muda, e a adaptação é exigente.
A questão foi levantada na sexta conferência Economia e Mercados sobre faturação electrónica, realizada em Luanda, e respondida com clareza pela presidente do conselho de direcção da Ordem dos Contabilistas e Peritos Contabilistas de Angola (OCPCA), Cristina Silvestre. A responsável explicou que a faturação electrónica elimina tarefas manuais repetitivas — nomeadamente o preenchimento linha a linha de campos nas declarações fiscais — mas não dispensa os profissionais que as executavam.
Cristina Silvestre esclareceu que as equipas que tratam da contabilidade e da fiscalidade são as mesmas, não deixando de existir, e que o trabalho continua a ser feito, apenas segundo novas regras que vêm facilitar o processo.
“A fatura aparece automaticamente no portal. O técnico vai ter que fazer a validação desta fatura no portal com aquilo que registou na sua contabilidade. As equipas que tratam da contabilidade, da fiscalidade são as mesmas — não vão deixar de existir. Não vai substituir o capital humano. Muito pelo contrário, o trabalho continua a ser feito.”
A mudança concreta para os profissionais da área é a natureza das tarefas. Antes da faturação electrónica, cada fatura de fornecedor exigia o preenchimento manual de mais de dez campos no sistema. Com a digitalização, esse processo passa a ser automatizado — a fatura entra directamente no portal e o contabilista concentra-se na reconciliação e validação dos dados, em vez da introdução manual de informação.
Para a OCPCA, esta transformação representa uma vantagem líquida para a profissão. Cristina Silvestre argumentou que os profissionais que não incentivarem os seus clientes a aderir à faturação electrónica continuarão a realizar um trabalho manual mais penoso, sem a garantia de que os documentos tratados estão em conformidade — um risco acrescido num contexto em que a utilização de softwares não certificados e de documentação falsa é uma realidade conhecida.
Cristina Silvestre advertiu que quem não apelar o cliente a estar em faturação electrónica continuará a fazer um trabalho manual muito mais cansativo, sem a confirmação de que os documentos estão em conformidade, num contexto em que há muita documentação falsa e softwares não certificados em circulação.
“Quem não apelar o seu cliente a estar em faturação electrónica continua a fazer um trabalho manual bem mais cansativo, ainda com o desafio de não termos a confirmação de que aquele documento que está a ser tratado na contabilidade está mesmo em conformidade.”
A posição da OCPCA é reforçada pelo alinhamento da própria classe. Segundo Cristina Silvestre, os contabilistas não resistem à mudança — pelo contrário, reconhecem nela uma oportunidade de valorização profissional. A eliminação das tarefas mais mecânicas liberta tempo para análise, aconselhamento e supervisão, funções de maior valor acrescentado que a tecnologia não consegue substituir.
A chefe do departamento de faturação electrónica da AGT, Luzia Cardoso Januário, corroborou a posição da OCPCA, sublinhando que o modelo adoptado em Angola foi desenhado tendo em conta a realidade do país e que a componente humana permanece central no processo. A validação das faturas recebidas, a reconciliação com a contabilidade e a submissão das declarações fiscais continuam a exigir julgamento profissional — algo que nenhum sistema automatizado substitui integralmente.
O debate sobre substituição tecnológica não é exclusivo de Angola. Em mais de 90 países que já adoptaram ou planeiam adoptar regimes de faturação electrónica, a experiência mostra que a digitalização fiscal redefine funções sem as eliminar. O que muda é o perfil de competências exigido: menos capacidade de introdução manual de dados, mais domínio de sistemas digitais, análise de informação e gestão de conformidade. Para os profissionais que se adaptarem, a faturação electrónica representa uma oportunidade de modernização. Para os que não o fizerem, o risco não é a substituição pela máquina — é a substituição por outros profissionais mais preparados.





