Conta Corrente angolana cai 91,5% em 2025 enquanto valorização do ouro sustenta nível das Reservas Internacionais

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Receitas de exportação de petróleo bruto caem 22,2% e arrastam superavit da Conta Corrente para 0,4% do PIB. Valorização do ouro em 65% e recomposição da carteira em favor de títulos de dívida sustentam posição externa de Angola.

As Reservas Internacionais de Angola subiram para 15,90 mil milhões de dólares dos Estados Unidos em 2025, apesar do colapso do saldo da Conta Corrente em 91,5% para 536,17 milhões de dólares dos Estados Unidos.

A leitura destes dois indicadores em conjunto traduz uma das características mais salientes do exercício externo angolano em 2025, segundo dados do Relatório Anual e Contas do Banco Nacional de Angola: A deterioração acentuada do fluxo corrente de divisas foi acompanhada por uma resiliência aparente do stock de reservas, sustentada essencialmente pela valorização do ouro nos mercados internacionais e pela recomposição estratégica da carteira de activos externos do banco central.

O saldo superavitário da Conta Corrente da Balança de Pagamentos, que em 2024 ascendia a 6,31 mil milhões de dólares dos Estados Unidos e representava 5,3% do Produto Interno Bruto, recuou em 2025 para apenas 536,17 milhões de dólares, equivalentes a 0,4% do PIB. O determinante central deste comportamento foi a contracção do saldo da Conta de Bens, que passou de 22,60 mil milhões de dólares para 15,04 mil milhões. As importações cresceram 9,35%, ao passarem de 14,19 mil milhões de dólares para 15,51 mil milhões, com destaque para máquinas e equipamentos (mais 503,20 milhões), aeronaves e embarcações (mais 254,19 milhões) e construções e materiais de construção (mais 218,29 milhões). Em paralelo, observou-se um agravamento de 38,98% no saldo deficitário dos Rendimentos Secundários, que inclui doações, remessas e outras transferências.

A pressão sobre o sector externo concentrou-se nas exportações, que recuaram 16,96% no exercício, ao passarem de 36,80 mil milhões de dólares para 30,56 mil milhões. O petróleo bruto, que continua a dominar a estrutura exportadora angolana, registou uma quebra de receitas de 22,16%, ao gerar 24,44 mil milhões de dólares em 2025, face aos 31,40 mil milhões de 2024. Esta evolução resultou simultaneamente da redução do volume exportado em 9,28% (para 357,10 milhões de barris) e da quebra de 14,19% no preço médio das Ramas Angolanas, que se fixou em 68,44 dólares por barril. As receitas dos refinados de petróleo caíram 16,86% e o cost oil recuou 21,07%, para 8,66 mil milhões de dólares. Em contraciclo, o gás natural registou um aumento de receitas de 20,52% e os diamantes de 14,65%, mas o volume agregado destas categorias foi insuficiente para compensar a contracção petrolífera. A China manteve-se como principal destino do petróleo bruto angolano, com quota de 58,49% das exportações.

A aparente contradição entre a deterioração do fluxo corrente e a manutenção do stock de reservas resolve-se em três planos analíticos distintos: a recomposição da carteira de activos externos, a valorização do ouro e o financiamento via Conta Capital e Financeira.

No plano da composição das Reservas Internacionais, os dados do BNA evidenciam uma alteração relevante face ao exercício anterior. Os títulos de dívida soberana, supranacionais e de agências governamentais passaram a representar 46,12% da carteira, face aos 42,42% de 2024. Os instrumentos de mercado monetário, que incluem bilhetes do tesouro e depósitos bancários, recuaram de 42,05% para 32,93%. O ouro, por sua vez, viu o seu peso na carteira saltar de 10,25% para 15,69%, no maior reforço relativo entre as classes de activo monitorizadas. Os outros activos de reserva mantiveram-se praticamente estáveis em 5,26%.

O segundo plano analítico explica o terceiro: a posição de 592 901 onças de ouro detida pelo BNA, mantida inalterada em quantidade ao longo do exercício, viu o seu valor de mercado subir significativamente. O preço internacional do ouro passou de 2 624,39 dólares por onça no final de 2024 para 4 322,02 dólares por onça no encerramento de 2025, uma valorização de aproximadamente 65%. Em consequência, o valor contabilístico da posição em ouro do BNA subiu de 1 419,07 mil milhões de kwanzas para 2 337,76 mil milhões, e a mais-valia potencial registada em capital próprio, na rubrica “Diferenças de reavaliação de justo valor”, ascendeu a 1 420,45 mil milhões de kwanzas, face aos 502,05 mil milhões de 2024.

No terceiro plano, a Conta Capital e Financeira contribuiu para amortecer o impacto da quebra corrente. O défice desta conta reduziu-se substancialmente, ao passar de 6,20 mil milhões de dólares dos Estados Unidos em 2024 para 365,03 milhões em 2025, uma melhoria de 5,83 mil milhões. O Investimento Directo Estrangeiro passou de défice de 1,14 mil milhões de dólares para superavit de 1,02 mil milhões, e os desembolsos de endividamento externo público quase quadruplicaram, ao passarem de 3,59 mil milhões para 12,56 mil milhões de dólares, contra amortizações de 6,51 mil milhões.

O exercício foi ainda marcado pela estabilidade da taxa de câmbio do kwanza no mercado formal. A cotação encerrou 2025 em 912,286 kwanzas por dólar dos Estados Unidos, face a 912,000 no final de 2024, uma variação de -0,03% que contrasta com a depreciação de 9,12% verificada no exercício anterior. Os bancos comerciais adquiriram ao mercado 12,00 mil milhões de dólares no exercício, mais 10,97% do que em 2024, com 5,35 mil milhões adquiridos ao Sector Petrolífero, 1,82 mil milhões ao Tesouro, 1,47 mil milhões ao Sector Diamantífero e 489,04 milhões ao próprio BNA.

Na mensagem que abre o relatório, o Governador do BNA, Manuel António Tiago Dias, contextualiza a evolução do exercício: “No sector externo, o saldo da conta de bens atingiu 14,01 mil milhões de dólares dos Estados Unidos, face aos 22,60 mil milhões de dólares registados no período homólogo de 2024, traduzindo-se numa redução de 38,0%. Este comportamento resultou, essencialmente, do decréscimo do valor das exportações em 19,14% e do aumento das importações em 10,90%”.

A documentação técnica do BNA assinala ainda que o stock de reservas internacionais assegurou uma cobertura de 7,9 meses de importações de bens e serviços, considerada confortável face aos referenciais habitualmente utilizados para economias emergentes dependentes de commodities. Em termos de gestão activa, o BNA mantém um perfil de investimento que passou recentemente, segundo o próprio documento, de “conservador para moderado”.


Sector externo angolano em 2025 — Indicadores seleccionados

Indicador20242025Variação
Saldo da Conta Corrente (milhões USD)6 310536,17-91,5%
Conta Corrente, % do PIB5,3%0,4%-4,9 pp
Saldo da Conta de Bens (mil milhões USD)22,6015,04-33,5%
Exportações totais (mil milhões USD)36,8030,56-16,96%
Importações (mil milhões USD)14,1915,51+9,35%
Reservas Internacionais (mil milhões USD)15,7715,90+0,81%
Preço Ramas Angolanas (USD/barril)79,7568,44-14,19%
Câmbio USD/AOA (final do período)912,000912,286-0,03%

Fonte: Relatório Anual e Contas do BNA 2025, secções Balança de Pagamentos, Sector Externo e Gestão das Reservas Internacionais


Enquadramento — Como se decompõe a carteira de Reservas Internacionais do BNA

A gestão das Reservas Internacionais do BNA assenta em três pilares fundamentais, definidos nos seus documentos basilares (Política de Investimentos e Linhas Mestras de Investimento): preservação do capital, garantia de liquidez e rentabilidade. A carteira está actualmente distribuída por quatro classes de activo: títulos de dívida (46,12%), instrumentos de mercado monetário (32,93%), ouro (15,69%) e outros activos de reserva (5,26%). A posição em ouro do BNA é constituída por 592 901 onças de ouro, mantida inalterada em quantidade durante o exercício de 2025 e valorizada ao preço de fecho diário disponível na bolsa de Nova Iorque. A variação de justo valor desta posição é registada em capital próprio, na rubrica “Diferenças de reavaliação”, sendo apenas reconhecida nos resultados aquando da alienação efectiva. Em nota de eventos subsequentes, o BNA refere que o preço do ouro continuou a subir em 2026, tendo atingido 5 279 dólares por onça em Fevereiro de 2026, uma valorização adicional de 22% face ao encerramento de 2025.

Notas de dólares e Euros.
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