Refém do petróleo: Angola arrisca ficar à margem do comércio livre africano

Data:

Angola foi a sexta maior exportadora africana em 2024, com vendas de 39,2 mil milhões de dólares, mas 96% tiveram origem em matérias-primas. Na ENAPP, o workshop nacional validou a estratégia de adesão à ZCLCA, organizado pelo Ministério da Indústria e Comércio com apoio da UNECA e financiamento do Canadá

A elevada dependência das exportações petrolíferas pode constituir o principal desafio à adesão plena de Angola à zona de comércio livre africana, advertiu ontem a UNECA, em Luanda.

A Estratégia de Implementação e o Plano de Acção da Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA) de Angola foram validados ontem, 23 de Junho, na Escola Nacional de Administração e Políticas Públicas (ENAPP), em Luanda, num workshop nacional organizado pelo Ministério da Indústria e Comércio (MINDCOM) com apoio da Comissão Económica das Nações Unidas para África (UNECA) e financiamento do Governo do Canadá.

Apesar do potencial reconhecido pela organização, a excessiva concentração das exportações nacionais constitui um dos maiores desafios ao aproveitamento pleno do mercado continental. Segundo dados da UNCTAD citados pela UNECA, Angola foi em 2024 a sexta maior exportadora de mercadorias de África — atrás da África do Sul, Nigéria, Argélia, Marrocos e Egipto —, com vendas avaliadas em 39,2 mil milhões de dólares, equivalentes a 6,3% das exportações totais do continente. Cerca de 96% desse valor teve origem em matérias-primas.

A representante da UNECA no evento, a economista Bineswaree Bolaky, leu uma comunicação da directora do Gabinete Sub-Regional para a África Austral (SRO-SA), Eunice G. Kamwendo, e prestou declarações no local. Para a responsável, o país tem condições para avançar na integração continental, já que «Angola reúne dimensão económica suficiente para desempenhar um papel relevante no comércio continental», ressalvando, porém, a reduzida participação dos produtos transformados na pauta global como factor limitador da competitividade nacional.

Os dados da UNCTAD indicam igualmente que Angola exportou para África cerca de 2,5 mil milhões de dólares em mercadorias durante 2024, das quais 42% corresponderam a produtos manufacturados, proporção acima dos 24% registados em 2018. A UNECA classificou a evolução como encorajadora, embora tenha sublinhado que o comércio angolano dentro de África é mais intensivo em bens transformados do que as trocas com o resto do mundo, dominadas por máquinas e equipamento de transporte.

Oitava maior economia africana em 2023, com um Produto Interno Bruto estimado em cerca de 90 mil milhões de dólares, Angola reúne, na leitura da organização, dimensão suficiente para se afirmar como pólo industrial e exportador regional e como fornecedor de serviços de transporte e trânsito aos países vizinhos sem litoral. Com a validação de ontem, o país juntou-se aos restantes 15 Estados-membros da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) que já desenvolveram estratégias de adesão à ZCLCA.

Os números demonstram a existência de condições para a integração continental, mas, para Bineswaree Bolaky, «o sucesso da adesão à ZCLCA dependerá da capacidade do país acelerar a industrialização, ampliar a produção nacional e reduzir gradualmente a dependência das exportações petrolíferas». A UNECA reafirmou o compromisso de apoiar a implementação do plano nacional, recordando que a indústria e o comércio têm de avançar em conjunto e que aquilo que o país fabricar determinará o que poderá exportar para o continente e para o mundo.


As quatro vias apontadas para Angola

A UNECA identificou quatro formas de a ZCLCA beneficiar o país. A primeira, como instrumento de diversificação económica e transformação estrutural pela industrialização e pelos serviços de elevado valor acrescentado, capaz de servir de amortecedor aos ciclos de expansão e contracção do petróleo. A segunda, no reforço do sector privado e na reorientação do investimento nacional e estrangeiro para escalar a produção destinada aos mercados africanos, incluindo negócios liderados por mulheres e jovens. A terceira, na aceleração da transição da economia informal para a formal. A quarta, nas reformas institucionais, na melhoria do ambiente de negócios, no desenvolvimento do capital humano e na expansão das infra-estruturas.

spot_img

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

spot_img
spot_img

Partilhe com amigos:

Notícias no E-Mail

spot_img

Popular

Artigos relacionados
Artigos relacionados

FESTIPUB renova regulamento e júri e agenda edição de 2026 para Outubro, com expansão aos PALOP

Festival da publicidade, comunicação e criatividade decorre a 7...

Bombas vazias, cofres cheios: MPLA chumba debate sobre os ganhos petrolíferos de Angola

Requerimento da UNITA foi reprovado por 78 votos contra...

Trump vai pedir mais de 14 mil milhões de dólares ao Congresso para combater surto de Ébola

Administração norte-americana pretende financiar resposta internacional e reforçar preparação...