Sistema bancário angolano financia menos de um quarto da economia nacional

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Activos bancários caíram de 75% para 38,9% do PIB entre 2019 e 2023; crédito ao sector privado é o mais baixo entre dez países comparáveis. Cinco maiores bancos concentram 67% dos activos num sector que o BNA reconhece ter intermediação financeira “aquém do desejado”

O sistema bancário angolano chegou ao final de 2025 com activos totais de 26,59 biliões de kwanzas e resultados recordes, mas a dimensão do sector em relação à economia continua a ser um dos seus traços mais reveladores. Em 2023 — o ano mais recente com dados comparativos internacionais disponíveis —, os activos bancários representavam 38,9% do PIB angolano, quase metade do valor registado em 2019, segundo o Memorando Económico de Angola do Fundo Monetário Internacional. A contracção resultou de três factores simultâneos: a recessão prolongada, o abate de créditos em incumprimento pelos bancos e o encerramento de instituições. O próprio BNA reconhece no seu Relatório Anual de 2025 que “o sector bancário continuou a apresentar um nível de intermediação financeira aquém do desejado, sobretudo no que respeita ao apoio ao sector real da economia.”

O dado que melhor ilustra a dimensão do problema não é o total de activos mas o crédito ao sector privado. Entre 2013 e 2023, este indicador caiu de uma média de 21,8% do PIB para 8,2% do PIB — uma retracção de mais de 13 pontos percentuais em dez anos. Em termos de peso nos activos bancários, o crédito ao sector privado desceu de 51,4% para 32,1% no mesmo período. Colocado em contexto comparativo, Angola registou em 2023 o valor mais baixo entre dez países identificados pelo FMI como homólogos estruturais: África do Sul liderava com 91% do PIB, seguida do Peru com 45,6%, Colômbia 42%, Indonésia 36%, Botsuana 30,1%, Moçambique 18,5%, Camarões 14,1%, Zâmbia 13% e Nigéria 13% — todos acima dos 8,2% de Angola.

Concentração, dívida pública e ausência de alternativas

A explicação para esta retracção é estrutural e multicausal. O FMI identifica como factor central o efeito de exclusão causado pelo financiamento do défice orçamental: entre 2013 e 2023, os títulos de dívida pública nos balanços dos bancos aumentaram de 17,7% para 31,3% dos activos, num movimento que reduziu o espaço disponível para crédito ao sector privado. O sector bancário angolano concentra-se em 21 instituições activas — menos uma do que em 2024, após a liquidação voluntária do VTB Africa —, mas a distribuição de activos é assimétrica: os cinco maiores bancos representam 67% do total dos activos e 64% dos empréstimos, segundo o FMI. O Estado detém directamente três bancos, incluindo dois dos cinco maiores, e exerce influência adicional através das participações da Sonangol e da UNITEL em várias instituições.

A outros factores que contribuíram para a retracção do crédito privado, o FMI acrescenta as restrições ao crédito em moeda estrangeira, os critérios de concessão mais exigentes, a escassez de projectos financiáveis, os procedimentos complexos de registo e execução de garantias e as taxas de juro elevadas. O resultado prático é documentado pelo World Bank Enterprise Survey de 2024: 90% das empresas angolanas financiam os seus investimentos com recursos próprios, acima da média da África Subsariana de 76% e dos países de médio-baixo rendimento de 74%. Apenas 3% do investimento empresarial em Angola é financiado por empréstimos bancários. Entre as empresas com conta bancária — 88% das PME e 96% das grandes empresas —, apenas 6% a 9% têm acesso a empréstimos, independentemente da dimensão.

Mercado de capitais como alternativa estrutural

A insuficiência da intermediação bancária foi identificada na IV Angola Banking Conference como um dos argumentos centrais para o desenvolvimento do mercado de capitais como fonte complementar de financiamento. Um participante do painel representante do sector empresarial afirmou que o mercado de capitais “certamente trará mais negócio, mais empresas para o sistema financeiro e conseguiremos diversificar o que actualmente fazemos.” A BODIVA encerrou 2025 com a capitalização bolsista do mercado accionista a cifrar-se em cerca de 4,17 biliões de kwanzas, com cinco empresas cotadas — BAI, BFA, BCGA, ENSA e BODIVA —, depois de o BFA ter sido admitido à negociação no seguimento da sua Oferta Pública de Venda. O mercado secundário de dívida pública negociou 5,72 biliões de kwanzas em 2025, com crescimento de 260% no número de transacções face ao ano anterior, segundo dados da BODIVA publicados em A Bolsa. O universo de investidores institucionais — fundos de pensões e seguradoras — continua, porém, muito reduzido para constituir por si só uma alternativa ao crédito bancário à escala necessária.

A revista A Bolsa sintetizou o diagnóstico: “A concentração do crédito em Comércio, Indústria e Serviços, com um subfinanciamento persistente de sectores estratégicos como Agricultura, Pesca e Construção, compromete a diversificação económica. Esta realidade sublinha a urgência de aprofundar o mercado de capitais como fonte alternativa de financiamento de longo prazo, essencial para sustentar o investimento produtivo.”

O sector financeiro angolano em perspectiva comparada — 2023

Crédito ao sector privado como percentagem do PIB: África do Sul 91%; Peru 45,6%; Colômbia 42%; Indonésia 36%; Botsuana 30,1%; Moçambique 18,5%; Camarões 14,1%; Zâmbia 13%; Nigéria 13%; Angola 8,2%. Activos bancários como percentagem do PIB em Angola: 38,9% em 2023 (face a 75% em 2019). Peso dos cinco maiores bancos: 67% dos activos totais e 64% dos empréstimos. Peso dos títulos de dívida pública nos activos bancários: 31,3% em 2023 (face a 17,7% em 2013).

Fontes: Memorando Económico de Angola, FMI; Relatório Anual e Contas do BNA — 2025; BODIVA, A Bolsa n.º 7, 2026.

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