O país que realizou a primeira cirurgia robótica no continente, em agosto de 2024, já acumula quase uma centena de operações desta natureza. O feito foi destacado na I Conferência sobre Modernização da Rede Hospitalar, realizada em Luanda.
Angola deu um passo que poucos países africanos ousaram dar. Há menos de um ano, o Complexo Hospitalar de Doenças Cardiopulmonares de Luanda tornou-se o palco da primeira cirurgia robótica realizada em solo angolano — e, segundo o Ministério da Saúde, em toda a África. O procedimento, realizado a 6 de agosto de 2024, foi efectuado sobre um paciente com cancro da próstata e teve uma particularidade que o tornou ainda mais histórico: o comando robótico foi operado remotamente a partir de Orlando, nos Estados Unidos da América, a uma distância de 17 mil quilómetros, com o suporte de uma equipa de profissionais angolanos no terreno.
A iniciativa decorreu no âmbito do ANGOTIC 2025, o Fórum Internacional de Tecnologias de Informação e Comunicação realizado em Luanda, e foi apresentada como um marco na integração de soluções digitais nos serviços de saúde do país. Desde então, a cirurgia robótica deixou de ser uma experiência isolada para se tornar uma realidade clínica. Foram realizados rastreios e exames detalhados para identificar pacientes elegíveis, e o total de cirurgias robóticas já realizadas em Angola ascende a 99 intervenções.
Os dados foram partilhados na I Conferência sobre Modernização da Rede Hospitalar e Melhoria dos Serviços de Saúde, um evento que reuniu especialistas nacionais e internacionais para debater o futuro do sistema de saúde angolano. A conferência contou com a participação de Tiago Jorge Barreto Pires, Director de Instalações e Equipamentos do Hospital de S. José, em Portugal, que apresentou a experiência europeia como referência para o processo de modernização em curso em Angola.
Para o sector privado e para os profissionais de saúde angolanos, o significado deste avanço vai além do prestígio simbólico. A cirurgia robótica reduz o tempo de recuperação dos pacientes, minimiza os riscos de complicações cirúrgicas e permite intervenções de alta precisão em especialidades como a urologia, a ginecologia e a cirurgia cardíaca — áreas em que Angola regista uma procura crescente e uma elevada taxa de evacuações médicas para o exterior. A consolidação desta capacidade em Luanda representa, a prazo, uma redução directa dessas evacuações e dos respectivos custos para o Estado e para as famílias.
O desafio que se coloca agora é a sustentabilidade e a expansão do modelo. A questão da formação de profissionais angolanos capazes de operar os sistemas robóticos de forma autónoma será determinante para que esta conquista não fique limitada a um hospital e uma cidade.




