BAI e BFA dominam capitalização da BODIVA enquanto bolsa espera por telecomunicações, energia e agroindústria

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O Mercado de Bolsa de Acções da BODIVA (Bolsa de Dívida e Valores de Angola) encerrou 2025 com uma capitalização bolsista de Kz 4,17 biliões, distribuída por cinco empresas cotadas. Duas delas — o Banco Angolano de Investimentos (BAI) e o Banco de Fomento Angola (BFA) — representam conjuntamente mais de 85% desse valor, com Kz 1,84 biliões e Kz 1,74 biliões, respectivamente.

O Banco Caixa Geral Angola (BCGA) contribui com Kz 467,98 mil milhões, a ENSA — Seguros de Angola com Kz 89,58 mil milhões e a própria BODIVA com Kz 33,84 mil milhões. Os três emitentes não bancários representam, em conjunto, menos de 15% da capitalização total.

A composição do mercado accionista angolano é, assim, uma fotografia do sector financeiro nacional. Telecomunicações, energia, agroindústria, construção, distribuição, indústria transformadora e serviços — sectores que representam parcelas significativas do Produto Interno Bruto e do emprego — não têm qualquer expressão na bolsa.

Esta concentração não é exclusiva do mercado accionista. Nos dados de custódia da Central de Valores Mobiliários de Angola (CEVAMA), os cinco maiores detentores de valores mobiliários são instituições do sector bancário: o Banco de Poupança e Crédito, o BAI, o BFA, o BCGA e o Banco Económico, que concentram 73,77% do montante total custodiado. O sector de Actividades Financeiras e de Seguros passou de 11,57% para 32,58% na distribuição sectorial da custódia entre 2023 e 2024.

No mercado de dívida corporativa, a mesma tendência é visível. Das quatro emissões de obrigações privadas em custódia na CEVAMA, três pertencem a entidades do perímetro financeiro ou energético estatal: a Sonangol (Kz 75 mil milhões), a ETU Energias (Kz 73 mil milhões) e o BAI (Kz 50 mil milhões). A Griner, com Kz 20 mil milhões, é a única emitente fora desse universo.

A própria actividade de negociação reflecte o peso das instituições financeiras. Segundo o relatório da BODIVA, estas representaram 87,87% do montante negociado em 2025, contra 7,96% das empresas e 4,17% dos particulares. Na posição vendedora, a concentração é ainda maior: as instituições financeiras representaram 89,63% do montante total.

O que falta à bolsa

Os operadores de mercado reconhecem a situação e apontam caminhos. Mário Mendes, presidente da Comissão Executiva da Fincrest, defendeu no relatório da BODIVA que “é fundamental atrair pequenas e médias empresas para o mercado”, sustentando que “o verdadeiro potencial reside em incentivar estas empresas, especialmente nos sectores extractivos, de infra-estruturas, telecomunicações e bens de consumo”. Na sua avaliação, “a emissão de títulos de dívida por PME, para financiar projectos específicos, pode ser o primeiro passo para a sua entrada no mercado bolsista, funcionando como precursor para futuras emissões de acções”.

João Sionguele, presidente do Conselho de Administração da Lwei Brokers, apontou a mesma necessidade ao afirmar que “só com um esforço concertado será possível alargar a base de empresas cotadas, especialmente de empresas fora do sector financeiro, tornando o mercado de acções mais representativo da economia real”.

Odair Costa, presidente da Comissão Executiva da BFA Capital Markets, identificou sectores concretos que poderiam vir ao mercado: “telecomunicações, banca e seguros, distribuição alimentar, construção e infra-estruturas apresentam maior potencial”. No mesmo sentido, referiu que as privatizações da Unitel e do Standard Bank Angola são operações cuja concretização em 2026 considera relevante para manter a dinâmica de crescimento.

Pedro Neto, CEO e sócio fundador da Eaglestone SDVM, defendeu que é essencial “trazer ao mercado empresas estruturantes do PROPRIV e grupos privados de sectores como telecomunicações, banca, energia e agroindústria, garantindo diversificação sectorial e um aumento do free float”.

Anabela Teixeira, presidente do Conselho de Administração da Madz Global, reforçou esta perspectiva ao afirmar que “o crescimento sustentado do mercado dependerá, cada vez mais, da qualidade dos emitentes que nele participam”, sublinhando a necessidade de “atrair empresas com escala, relevância estratégica e cultura sólida de governação”.

Obstáculos à diversificação

Luís Gonçalves, presidente da Comissão Executiva do BFA, identificou os principais entraves à entrada de empresas privadas no mercado: “os elevados custos para organização e estruturação da oferta”, “a adequação da empresa às regras de mercado”, “o receio de perda de controlo por parte dos actuais sócios” e “o elevado escrutínio e complexidade regulatória”.

Walter Pacheco, presidente do Conselho de Administração da Kassai Capital, acrescentou uma dimensão regulatória ao debate, defendendo que “o mercado necessita de maior flexibilidade” e que “uma excessiva compartimentalização pode revelar-se desajustada face às necessidades objectivas da economia e à maturidade crescente dos intervenientes”.

O enquadramento macroeconómico do relatório da BODIVA reforça a pertinência da questão. O crédito bancário à economia cresceu apenas 0,8% em 2025, com taxas de juro próximas de 20% e uma concentração sectorial persistente em Comércio, Indústria e Administração Pública. Agricultura, Pesca, Pecuária e Construção permaneceram subfinanciados. Neste contexto, o relatório sublinha “a urgência do aprofundamento do mercado de capitais como fonte complementar de financiamento”, capaz de “mobilizar recursos de longo prazo, diversificar fontes de financiamento, reduzir o risco sistémico e promover maior transparência e governação corporativa”.

Com cinco empresas cotadas — todas do sector financeiro e segurador, à excepção da própria gestora da bolsa —, o mercado accionista angolano cresceu significativamente em 2025 em dimensão, liquidez e número de investidores. O próximo passo, reconhecido transversalmente pelos operadores, passa por torná-lo representativo da economia que pretende financiar.

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