Empréstimos ao sector real permanecem concentrados em comércio e serviços, enquanto sectores produtivos essenciais à redução de dependência do petróleo enfrentam escassez de financiamento. Standard Bank alerta para desequilíbrio que compromete estratégia de substituição de importações
O crédito bancário ao sector privado angolano cresceu nos últimos trimestres, atingindo aproximadamente 8-9 biliões Kz em Setembro de 2025, mas permanece concentrado em sectores menos produtivos como comércio e serviços, enquanto agricultura e manufatura — pilares da diversificação económica — enfrentam escassez crónica de financiamento, revelam dados do Banco Nacional de Angola analisados pelo Standard Bank.
A distribuição desequilibrada do crédito compromete a estratégia governamental de substituição de importações e redução da dependência do petróleo, que actualmente representa 18,4% do PIB mas continua a gerar mais de 93% das exportações do país, segundo dados apresentados no Briefing Económico do Standard Bank.
“A redução da dependência no petróleo requer progresso nas reformas para melhorar o ambiente de negócios, num contexto de espaço fiscal limitado e desequilíbrios entre a oferta e procura de moeda externa”, alertou Fáusio Mussá, Economista Chefe do Standard Bank, sublinhando que financiamento inadequado ao sector produtivo é obstáculo estrutural à transformação económica.
“Outros sectores” dominam carteira de crédito
Gráficos do Banco Nacional de Angola mostram que os “outros sectores” — categoria que inclui comércio, serviços, construção civil e crédito a particulares — dominam a carteira de empréstimos bancários, enquanto agricultura, extractivas não-petrolíferas e manufatura registam volumes de crédito desproporcionalmente baixos face à sua importância estratégica.
Em Setembro de 2025, empréstimos ao sector real (agricultura, extractivas, manufatura) totalizavam aproximadamente 2-3 biliões Kz, representando menos de 30-35% do total da carteira, apesar de estes sectores empregarem parte significativa da força de trabalho e serem prioritários nos planos de diversificação.
A agricultura, que representa 18,4% do PIB e emprega 47% da força de trabalho angolana, recebe fracção marginal do crédito bancário, insuficiente para financiar mecanização, irrigação, armazenamento e processamento — investimentos essenciais para aumentar produtividade e substituir importações de alimentos.
Taxas de juro proibitivas para sectores produtivos
Especialistas atribuem a concentração de crédito em sectores menos produtivos a múltiplos factores estruturais, destacando-se as taxas de juro elevadas que tornam financiamento inviável para projectos agrícolas e industriais com retorno de longo prazo.
Mesmo com os cortes previstos pelo Standard Bank — taxa directora do BNA descerá de 19,5% actualmente para 12,5% em 2027 — as taxas comerciais praticadas pelos bancos (que incluem spreads de risco) permanecerão em níveis de dois dígitos, incompatíveis com a rentabilidade de actividades como agricultura (margem 5-15%) ou manufatura (10-20%).
“Agricultura e manufatura têm ciclos longos de retorno. Com juro de 14-19%, é impossível viabilizar projectos nestes sectores”, explica analista financeiro (anonimato solicitado), acrescentando que comércio e serviços — que têm rotação rápida de capital e margens elevadas — conseguem absorver custos de financiamento mais facilmente.
Risco e garantias afastam bancos de sectores produtivos
Para além do custo, bancos comerciais consideram agricultura e manufatura sectores de alto risco, devido a: — Volatilidade climática (secas, pragas afectam produção agrícola)
— Infraestrutura deficiente (estradas, electricidade, água comprometem operações industriais)
— Mercados instáveis (preços agrícolas flutuam, concorrência de importações)
— Falta de garantias (agricultores e industriais não têm colateral aceite por bancos — terra muitas vezes sem título, equipamento desvaloriza rapidamente)
Inversamente, comércio (importação/distribuição) e serviços (telecomunicações, transportes) oferecem fluxos de caixa previsíveis, stocks que servem de garantia e menor exposição a choques externos, tornando-se clientes preferidos dos bancos.
Investimento público insuficiente não compensa lacuna privada
Dados do Ministério das Finanças analisados pelo Standard Bank mostram que investimento público — que poderia compensar escassez de crédito privado em sectores estratégicos — permanece em níveis insuficientes, representando apenas 10-20% das despesas totais do Estado entre 2023-2025.
A maior parte do orçamento é consumida por despesas correntes (salários, transferências, subsídios) e serviço da dívida (que consome 60-80% das receitas), deixando espaço fiscal limitado para investimentos em infraestrutura agrícola (irrigação, silos, estradas rurais) ou industrial (zonas económicas especiais, energia, logística).
“Os investimentos público e privado têm apoiado o crescimento e a diversificação económica, mas permanecem insuficientes”, reconhece relatório do Standard Bank, sublinhando que Angola precisaria duplicar ou triplicar investimento total (público + privado) para atingir taxas de crescimento sustentáveis acima de 4-5% anuais.
Consequências: 93% das exportações ainda são petróleo
A escassez de financiamento ao sector produtivo reflecte-se directamente na composição das exportações: apesar de o peso do petróleo no PIB ter caído para menos de 20%, os hidrocarbonetos ainda representam mais de 93% das exportações angolanas, evidenciando fracasso em criar capacidade exportadora não-petrolífera.
“Angola está a implementar uma estratégia de substituição de importações e essa estratégia tem o mérito de ajudar a substituir alguns produtos com produção local. Mas, como é natural, leva tempo até que se observe uma maior contribuição do resto da economia nas exportações”, afirmou Fáusio Mussá.
Produtos agrícolas (café, milho, mandioca), minerais (diamantes, ferro, fosfatos) e manufacturas (cimento, cerâmica, têxteis) produzidos localmente abastecem principalmente mercado doméstico, não gerando divisas que reduziriam dependência cambial do petróleo.
Soluções propostas: linhas de crédito dirigidas e garantias públicas
Economistas defendem criação de linhas de crédito subsidiadas direccionadas a agricultura e manufatura, com taxas de juro bonificadas (6-10%), prazos longos (5-10 anos) e períodos de carência, financiadas por bancos de desenvolvimento (Banco de Desenvolvimento de Angola) ou organismos multilaterais.
Propõem igualmente sistemas de garantias públicas onde o Estado assume parte do risco de crédito (30-50%), reduzindo exposição dos bancos comerciais e incentivando financiamento a sectores produtivos sem colateral tradicional.
“Sem intervenção dirigida, mercado sozinho não alocará crédito a agricultura e indústria nas proporções necessárias para diversificação. É preciso política de crédito desenvolvimentista”, defende economista independente.





