A Directora da NESR Art Foundation, Edna Bettencourt, fala sobre inauguração de nova sede na Marginal, programa de residências que já recebeu cerca 22 artistas e ambição de manter Angola no mapa global da arte contemporânea.
O que representa a inauguração deste novo espaço para a NESR Art Foundation?
Definitivamente, este é um momento muito especial para nós.
A Fundação começou em 2021, no Porto de Luanda, num armazém que remodelámos com muita dedicação. Estar hoje num espaço que também tem valor histórico para a família Nesr é extremamente significativo.
Ao olharmos para trás e para o futuro, percebemos o quanto crescemos — enquanto equipa, instituição e missão. Esta inauguração simboliza um novo ciclo: a consolidação daquilo que construímos e a expansão daquilo que ainda queremos alcançar.
Dar este passo, com uma estrutura desta dimensão, confirma que estamos no caminho certo e que o trabalho desenvolvido ao longo destes quatro anos tem produzido impacto real para artistas e para o sector cultural angolano e africano.
Que reconhecimento recente reforça essa percepção?
Em Agosto deste ano, fomos reconhecidos como uma das cinco fundações de arte mais essenciais do continente africano.
Esse reconhecimento reforça o esforço e o compromisso que temos colocado em apoiar artistas angolanos e africanos, e em fortalecer a cena artística em Angola.
De facto, no país não existe outra instituição com a nossa estrutura e consistência programática — e isso é importante sublinhar. A presença da NESR serve também para inspirar o surgimento de outros projectos, contribuindo colectivamente para consolidar uma cena artística que é rica, mas que precisa de estímulos e continuidade.


Que valências traz este novo espaço?
O novo espaço traduz a nossa visão de crescimento e de serviço à comunidade artística.
Passámos de uma pequena estante de biblioteca para uma sala completa, aberta ao público, com foco em estudantes, investigadores, curadores e artistas.
Temos agora uma área de residência com mais conforto e autonomia — dois quartos, cozinha equipada, sala de estar e um estúdio de trabalho integrado.
Criámos também uma sala de exposições e eventos, que será um espaço de encontro e diálogo, e uma potencial fonte de sustentabilidade para apoiar os nossos projectos.
Esta mudança permite-nos finalmente concretizar projectos que estavam em planeamento há mais de quatro anos e reafirma o nosso compromisso com o país e com a comunidade artística.
E a localização na Marginal?
A Marginal é um ponto de encontro da cidade, acessível e simbólico. Estar aqui aproxima-nos do público e dos parceiros.
Será muito mais fácil para a comunidade visitar, participar nos programas e conhecer o que fazemos. Esta acessibilidade física é uma forma concreta de democratizar o acesso à arte.
Além disso, estar num espaço tão emblemático de Luanda reforça o orgulho e a confiança com que encaramos esta nova fase da Fundação.
O programa de residências é claramente uma mais-valia para artistas nacionais. E os internacionais?
Sem dúvida, é um programa transformador para ambos.
A particularidade da nossa residência é o seu carácter de experimentação e investigação. Os artistas não são obrigados a produzir — são incentivados a pensar, a pesquisar e a desenvolver projectos em profundidade.
Oferecemos tempo, espaço e orientação, com sessões de mentoria individualizadas conduzidas por curadores internacionais. Estas condições, raras mesmo em contextos globais, permitem que cada artista expanda a sua prática e o seu olhar.
Trata-se de um ambiente de criação e partilha, e não apenas de produção.
Quantos artistas já receberam?
Desde 2021 já recebemos 22 artistas, entre angolanos e de países como Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Gana, Nigéria e África do Sul. Esse número traduz a seriedade e a consistência do nosso trabalho.
A NESR Art Foundation é, acima de tudo, um espaço de pesquisa, reflexão e experimentação, que promove pensamento crítico e fomenta o diálogo entre diferentes práticas e gerações.
Pode detalhar a infraestrutura do novo espaço?
O novo hub conta com uma área dedicada aos artistas residentes — dois quartos (para dois artistas por edição), uma sala de estar, cozinha equipada e um estúdio de trabalho amplo.
Há também uma biblioteca especializada, uma sala de showroom (que futuramente será uma loja de produtos desenvolvidos em parceria com artistas), escritórios administrativos, sala de reuniões, casa de banho pública e uma sala de exposições.
Além disso, dispomos de um terceiro quarto pensado para receber curadores e investigadores internacionais, e um espaço reservado para o futuro centro educativo, para o qual procuramos apoio local.
Tudo foi pensado para criar um ecossistema que integra criação, pesquisa e partilha.

Estar neste novo espaço é também um reposicionamento estratégico?
Exactamente.
Este é um movimento estratégico que nos permite abrir novas possibilidades de colaboração, atrair parceiros, apoiantes e financiadores, e reforçar a nossa presença em Angola e no exterior.
Acreditamos na colaboração como força motriz — e este espaço, pela sua estrutura e localização, reafirma o nosso posicionamento como instituição de referência, local e internacionalmente.
Façamos um balanço: qual o percurso desde 2021?
Começámos em 2021, no Porto de Luanda, com três edições anuais de residências — seis artistas por ano.
Até ao momento, recebemos cerca de 22 artistas de diferentes países africanos, e em 2025 acolhemos também duas artistas internacionais – Cassi Namoda e Wendy Morris – em programas de pesquisa mais curtos, focados em comunidades africanas e no contexto urbano de Luanda.
Estes intercâmbios são fundamentais para manter o diálogo entre Angola e o mundo, e para dar visibilidade à riqueza do nosso contexto artístico.
Que actividade marca as comemorações dos 50 anos da Independência?
Neste mês iniciamos Arquivos do Tempo, a nossa terceira actividade pública de 2025.
É uma série de conversas moderada pelo historiador e curador Adriano Mixinge, que decorre entre 4 e 27 de Novembro.
O programa propõe uma reflexão sobre os 50 anos da Independência a partir das práticas artísticas, com várias gerações de artistas a partilhar trajectórias e memórias.
Mais do que uma celebração, é um exercício de escuta e crítica — um convite a revisitar arquivos e repensar a história da arte em Angola sob novas perspectivas.
E as perspectivas para 2026?
Temos já aberta a Chamada para as Residências de 2026, até ao final de Novembro.
O processo é aberto a artistas de Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau. As candidaturas passam por uma pré-selecção e são analisadas pelo nosso Comité Artístico.
Além disso, queremos reforçar a presença da Fundação em conferências e encontros internacionais. Levar a Fundação e Angola para o exterior é essencial para consolidar o nosso reconhecimento e ampliar o diálogo com outras instituições e profissionais da arte contemporânea.
Como acolheram a distinção de estarem entre as cinco fundações de referência em África?
Com muito orgulho e sentido de responsabilidade.
Foi uma distinção inesperada, mas extremamente gratificante.
A família Nesr e a sua dedicação são o pilar deste projecto, e apesar dos desafios, temos conseguido fazer as coisas acontecer.
Para nós, sustentabilidade não é apenas financeira — é também a maturidade e a consistência dos projectos.
Este reconhecimento reforça o nosso compromisso em continuar a crescer de forma responsável, expandindo o programa público e educativo, e mantendo o foco na qualidade e relevância do nosso trabalho.

Há instituições noutros países africanos, como África do Sul, e eventos como a Bienal de Dakar com muito mais relevância mediática. Angola já está no mapa global da arte contemporânea?
Sim, está — e cada vez mais.
Temos uma geração de artistas angolanos com forte presença internacional, o que é extremamente relevante. Não só nas artes visuais e plásticas mas também em outros campos da arte e cultura. Mas claro, como em qualquer outra realidade que ainda existem lacunas e desafios estruturais.
Cada vez mais curadores e artistas estrangeiros manifestam interesse em vir conhecer o contexto angolano. É importante mostrar que há estrutura, que há programação e que Angola está aberta ao diálogo global.
Pode dar exemplos concretos desse posicionamento internacional?
No último ano, artistas angolanos como Kiluanji Kia Henda e Sandra Pou lson participaram na exposição principal da Bienal de Veneza, uma das mais prestigiadas do mundo.
Além disso, galeristas angolanos têm levado obras e artistas angolanos para grandes feiras internacionais ou até em projetos com museus, ampliando o alcance e a visibilidade dos artistas nacionais.
Tudo isso mostra um esforço colectivo — artistas, curadores, instituições e fundações — que faz com que Angola definitivamente se mantenha no circuito da arte contemporânea a uma escaola global.
NESR Art Foundation
– Fundação: 2021 (Porto de Luanda)
– Nova sede: Marginal de Luanda (2025)
– Artistas recebidos: 22 (2021-2025)
– Países representados: Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Gana, Moçambique, África do Sul
– Reconhecimento: Top 5 fundações de arte em África (Agosto 2025)
– Residências: 3 edições/ano, 2 artistas por edição, duração 2 meses
– Call aberto: Até final de Novembro 2025 (Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé, Guiné-Bissau)
– Programa público 2025: “Arquivos do Tempo” (4-27 Novembro, conversas semanais)
Contactos:
+244 940 559 609




