Rolls-Royce abandona meta de electrificação total até 2030

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A Rolls-Royce Motor Cars reverteu o compromisso público de converter integralmente a sua gama para veículos eléctricos até ao fim de 2030, invocando procura insuficiente entre a clientela ultra-rica e alterações no enquadramento regulamentar, anunciou esta terça-feira o presidente executivo da marca, Chris Brownridge.

A decisão marca uma reviravolta estratégica significativa face ao plano anunciado em 2021 pelo antecessor de Brownridge, Torsten Müller-Ötvös, que havia declarado que a Rolls-Royce deixaria de produzir e comercializar qualquer produto com motor de combustão interna a partir de 2030. Na altura, a marca apresentou o Spectre, primeiro modelo totalmente eléctrico da sua história, como ponto de partida para uma transição rápida.

As projecções iniciais apontavam para que o Spectre representasse 20% das vendas anuais no curto prazo e até 70% em 2028, preparando o terreno para a eliminação progressiva do motor V12 que há décadas define a identidade da marca britânica de luxo, actualmente propriedade do grupo BMW.

Procura dividida e pressão regulamentar atenuada

Brownridge, que assumiu a liderança da Rolls-Royce em data não especificada após a saída de Müller-Ötvös, justificou a mudança de rumo com alterações materiais nos pressupostos que sustentavam a estratégia original. Segundo declarações citadas pelo jornal britânico The Times, a procura por veículos eléctricos no segmento ultra-luxo revelou-se mais fragmentada do que antecipado.

“Por cada cliente que adora um veículo eléctrico, há um que não gosta”, afirmou o executivo, sublinhando que a base de clientes ultra-ricos da Rolls-Royce continua a valorizar os motores de combustão interna tradicionais. A marca opera num segmento de mercado onde o preço médio dos veículos ultrapassou 500 mil dólares pela primeira vez em 2023, ano em que a empresa registou vendas recorde acima de 6.000 unidades.

O presidente executivo apontou ainda para um abrandamento da pressão regulamentar em mercados-chave, embora não tenha especificado quais os países ou regiões em causa. O Reino Unido mantém o objectivo de proibir a venda de novos veículos a gasolina e gasóleo a partir de 2030, enquanto a União Europeia estabeleceu 2035 como prazo para eliminação gradual dos motores de combustão.

Motor V12 mantém-se na gama sem prazo definido

Brownridge recusou delinear um novo calendário para a electrificação da gama ou especificar quantos modelos eléctricos adicionais a Rolls-Royce planeia lançar. Também não divulgou dados actuais de vendas do Spectre, cuja recepção no mercado tem sido observada como indicador da aceitação de veículos eléctricos no segmento de ultra-luxo.

O executivo enfatizou que o motor V12 de 6,75 litros biturbo, que equipa actualmente os modelos Phantom, Ghost e o SUV Cullinan, permanecerá disponível por tempo indeterminado. “O V12 faz parte da nossa história”, declarou, sinalizando que a herança da marca e as preferências dos clientes passam a ter peso equivalente às considerações ambientais.

O motor V12 da família N74, que gera entre 563 e 593 cavalos de potência e até 900 newton-metro de binário consoante a versão, tem sido associado à experiência de condução característica da Rolls-Royce, descrita internamente como “waftability” — capacidade de proporcionar deslocação suave e silenciosa.

A mudança de estratégia da Rolls-Royce insere-se num movimento mais amplo de reavaliação de planos de electrificação no sector automóvel de luxo. Vários fabricantes têm ajustado calendários e metas após constatarem que a adopção de veículos eléctricos no segmento premium tem sido mais lenta do que inicialmente projectado.

A Bentley, rival directa da Rolls-Royce e propriedade do grupo Volkswagen, havia anunciado planos de lançar um modelo totalmente eléctrico em 2025 e de converter integralmente a gama até 2030. A Jaguar, pertencente à Tata Motors, estabeleceu 2025 como prazo para descontinuar veículos a gasolina.

Joachim Post, director técnico do grupo BMW (casa-mãe da Rolls-Royce), confirmou em Janeiro deste ano que o conglomerado alemão continuará a produzir motores de seis, oito e doze cilindros, o que garante a continuidade do V12 para a marca britânica. A declaração surge num contexto em que a BMW procura equilibrar investimentos em electrificação com a manutenção de motores tradicionais em segmentos específicos.

O Spectre, lançado comercialmente em 2023, representa um investimento significativo da Rolls-Royce na tecnologia eléctrica. Construído sobre a mesma plataforma de alumínio utilizada no Phantom, Ghost e Cullinan, o coupé de duas portas pesa aproximadamente três toneladas mas acelera de zero a 97 quilómetros por hora em 4,5 segundos, graças a um sistema de dois motores que gera 900 newton-metro de binário e 430 quilowatts de potência. A autonomia homologada pela agência norte-americana EPA é de 468 quilómetros, e o preço de partida nos Estados Unidos excede 420 mil dólares.

Brownridge não especificou se a Rolls-Royce estabelecerá novas metas de vendas para veículos eléctricos ou se definirá um prazo alternativo para a transição energética. A ênfase parece deslocar-se de uma transição com prazo fixo para uma abordagem de “opcionalidade”, permitindo que a procura dos clientes dite o ritmo da electrificação.

A Rolls-Royce Motor Cars não respondeu a pedidos de comentário adicionais sobre a nova estratégia.

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