Revista Ngapa reivindica a universalidade do Conhecimento, contra a exclusão de saberes e sistemas de controlo

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A Ngapa 03 chega ao público com uma edição reflexiva sobre o conhecimento como património colectivo da humanidade, construído através de interacções entre geografias e povos distintos. Neste sentido, a publicação junta vozes de Angola e do mundo para reivindicar o conhecimento, ciência e tecnologia enquanto instrumentos de emancipação e transformação (e não de controlo), como forma de construir um futuro mais justo onde todos temos lugar cativo.

O conhecimento não é gerado de forma isolada e não é propriedade de ninguém. Desde os conhecimentos empíricos, como a agricultura e a domesticação do gado, até os saberes científicos mais elaborados, todos os povos do mundo contribuíram para o avanço do entendimento humano. Reconhecê-lo é o ponto central da mais recente edição da revista Ngapa. 

Com o mote “Akwa kuta sona” (mestres dos desenhos sona), a publicação confronta a percepção de que a ciência é uma criação exclusiva do Ocidente e defende a articulação entre o conhecimento global e os saberes locais e o seu potencial de ampliar a compreensão humana. No artigo “Gerdes e o despertar do pensamento matemático”, o etno-matemático moçambicano Marcos Cherinda aprofunda este ponto, evidenciando como a geometria Sona dos Cokwe, enquanto forma sofisticada de pensamento matemático, é capaz de dialogar com paradigmas universais.

Esta ideia é retomada pelo investigador e músico Victor Gama. Na rubrica “Tocando”, o autor resgata a cosmogonia Kongo/Angola e explica como o objecto religioso mpungo e o cosmograma dikenga, impulsionaram-no a criar instrumentos que tocam nos palcos de todo o mundo, a toha e acrux. 

No mesmo sentido, e numa análise do mundo actual marcado pela tecnologia, a filósofa italiana Francesca Ferrando, umas das principais vozes globais do pós-humanismo, defende numa longa entrevista a Noemi Alfierri que “Angola e África têm de encarar a Inteligência Artificial desde uma perspectiva generativa, e não de neocolonialismo e tecnologia”.

A discussão alarga-se até à secção literária “Matriz”. Na rubrica “Posfácio”, o académico Pedro Patacho escreve “Para o desenvolvimento da cultura científica em África”, sobre a obra do intelectual camaronês Jean-Marc Ela. Neste texto, Patacho reflecte sobre o lugar da ciência em África e sobre os caminhos possíveis para a sua reinvenção face às perspectivas eurocêntricas sobre a ciência e a produção do conhecimento.

A “Matriz” desta edição inclui ainda os contos “Uma Rapariga no Escuro”, de Djaimilia Pereira de Almeida; “Má Tengó” de Djamel Moçambique, jovem escritor do Lubango; e “Barulho de Água”, da autora brasileira Ana Paula Lisboa. 

Como neste debate sobre conhecimento, o ponto de partida é importante, em “Cara-a-Cara” os académicos Kavish Chetty (África do Sul) e Claudete Daflon (Brasil) contrapõem argumentos sobre decolonialidade. Conceito que permeia também “Lições de um defensor de uma memória descolonizada”, sobre o realizador senegalês Ousmane Sembène, da autoria do jornalista Mbagnick Ngom; “Então Kizomba significa festa…”, da bailarina e investigadora mexicana Andrea Cabrera; e “Rituais de Futuro: A Ancestralidade como Tecnologia de Resistência”, no qual o artista e autor Janguinda Kabwenha conta como redesenha o tempo nos seus projectos Yakalakaya e Umbango.

A fotografia marca uma vez mais a Ngapa, agora com o ensaio “Corrente”, da brasileira Victoria Marques, e a fotorreportagem “Fantasmas”, de Hélio Buite, sobre a inutilidade do conhecimento face à inacção humana.

Neste registo de actualidade, a reportagem “Falta dinheiro e vontade política para dinamizar a investigação científica feita em Angola”, dos jornalistas Joaquim José Reis e Manuel Camalata, explora as barreiras à investigação em Angola.  Em contraponto, demonstrando que o conhecimento é um esforço colectivo, a bióloga angolana Soraya Marques partilha a cronologia da sua tese de mestrado, resultado de uma investigação colaborativa transnacional que revelou ao mundo da paleontologia uma nova espécie anterior aos dinossauros.

A Ngapa conta ainda com “Inútil”, banda desenhada com argumento do realizador guineense Welket Bungué e ilustração de Tché Gourgel. Os ilustradores Akira Manzambi, Felix Shumba, Ify Chiejina, Kumenga Mumma e Paula Agostinho viajam pelas páginas da revista com interpretações diversas sobre o tema central da edição.

A revista Ngapa está à venda na livraria Kiela. Em breve, estará também disponível nas livrarias ULA, no Lubango.

Lançada em Luanda em Julho de 2024, a NGAPA é uma revista quadrimestral que ambiciona reflectir os desejos do mundo contemporâneo através do jornalismo, ensaio, literatura e artes plásticas e performativas (design gráfico, ilustração, fotografia, música, cinema, dança, teatro, entre outras).

Propriedade da Kacimbo Editora, busca explorar a cultura sob uma perspectiva ampla, com foco nas interacções entre indivíduos, no ambiente que os circunda e nas dinâmicas com as estruturas de poder. Esta visão permite uma análise profunda das nuances que configuram as práticas quotidianas e as formas de organização social, revelando como os indivíduos negociam, se adaptam e resistem.

A Ngapa quer discutir Angola, Angola no mundo e o mundo em Angola. Sem temas tabu, sem certezas absolutas, nem ideologias fixas. Aberta, franca, sem medo do contraditório nem do confronto de múltiplas perspectivas.

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