Como os diamantes são rastreados: A tecnologia iTraceIT chega a Angola

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Sistema adquirido pela Catoca representa avanço na transparência e rastreabilidade da indústria diamantífera angolana

A Sociedade Mineira de Catoca deu um salto tecnológico ao adoptar o sistema iTraceIT, posicionando Angola na vanguarda da rastreabilidade diamantífera global. Esta ferramenta digital permite acompanhar cada pedra preciosa desde a extracção até ao consumidor final, numa resposta directa às crescentes exigências de transparência e ética no mercado internacional de diamantes.

O que é o iTraceIT?

O iTraceIT é uma plataforma de rastreabilidade desenvolvida especificamente para a indústria de pedras preciosas, que utiliza tecnologia blockchain e códigos únicos de identificação para criar um “passaporte digital” para cada diamante. O sistema foi concebido para responder às exigências do Processo de Kimberley e aos regulamentos internacionais sobre diamantes de conflito.

A tecnologia funciona através da atribuição de um identificador único a cada diamante no momento da extracção, que permanece associado à pedra durante todo o seu ciclo de vida. Este código é registado numa base de dados segura e imutável, criando um registo permanente que não pode ser adulterado.

Como funciona o rastreamento

O processo de rastreamento começa na mina, onde cada diamante bruto recebe a sua identificação digital logo após a extracção. Esta identificação inclui informações como:

  • Data e local de extracção
    • Características físicas da pedra (peso em quilates, cor, claridade)
  • Número do certificado gemológico
  • Dados da empresa extractora
  • Coordenadas geográficas da mina

À medida que o diamante percorre a cadeia de valor, cada transacção é registada no sistema. Quando a pedra é enviada para lapidação, o sistema actualiza o registo com informações sobre a fábrica, a data de processamento e as novas características da pedra após o corte e polimento.

Se o diamante for dividido em várias pedras menores durante a lapidação, o sistema cria novos identificadores para cada pedra resultante, mantendo sempre a ligação ao diamante original.

Tecnologia blockchain: a chave da confiança

O iTraceIT utiliza tecnologia blockchain, a mesma que sustenta as criptomoedas, para garantir a integridade dos dados. Cada transacção ou mudança no estatuto do diamante é registada como um “bloco” numa cadeia cronológica e imutável de informações.

Esta tecnologia oferece várias vantagens:

Imutabilidade: Uma vez registada, a informação não pode ser alterada ou apagada, garantindo a autenticidade do histórico do diamante.

Transparência: Todos os intervenientes autorizados na cadeia de valor podem aceder às informações relevantes sobre a origem e o percurso da pedra.

Segurança: A encriptação avançada protege os dados contra fraudes e acessos não autorizados.

Descentralização: A informação não está armazenada num único servidor, mas distribuída por uma rede de computadores, tornando o sistema mais resiliente.

A adopção pela Catoca: contexto e implicações

A decisão da Sociedade Mineira de Catoca de implementar o iTraceIT surge num contexto de crescente pressão internacional por transparência na cadeia de fornecimento de minerais. Consumidores, especialmente nos mercados desenvolvidos, exigem cada vez mais garantias de que os diamantes que adquirem não financiam conflitos, não envolvem trabalho infantil e provêm de operações ambientalmente responsáveis.

Segundo o director-geral da Catoca, Benedito Paulo Manuel, “a adopção do sistema iTraceIT reforça o compromisso da empresa com a transparência, a ética empresarial e a conformidade com os padrões internacionais da indústria diamantífera”.

A implementação do sistema na maior mina de diamantes de Angola, responsável por cerca de 75% da produção nacional, tem implicações significativas:

Para Angola: O país posiciona-se entre as nações que lideram os esforços por uma indústria diamantífera ética, transparente e tecnologicamente avançada, podendo aceder a mercados premium que valorizam a rastreabilidade.

Para a indústria: Estabelece um padrão de referência que outras operadoras angolanas deverão seguir, elevando a reputação dos diamantes nacionais no mercado global.

Para os consumidores: Oferece garantias verificáveis sobre a origem ética das pedras, aumentando a confiança e potencialmente o valor comercial dos diamantes angolanos.

Desafios e oportunidades

A implementação de sistemas de rastreabilidade como o iTraceIT não está isenta de desafios. Requer investimento em equipamento, formação de pessoal e mudanças nos processos operacionais. Além disso, a eficácia do sistema depende da adopção por todos os elos da cadeia de valor, desde a mina até ao retalhista.

No entanto, as oportunidades superam largamente os desafios. Estudos internacionais indicam que diamantes certificados e rastreáveis podem alcançar preços até 20% superiores no mercado, devido à crescente procura por produtos éticos e sustentáveis.

A rastreabilidade também protege a indústria contra fraudes. O mercado de diamantes sintéticos, que cresceu exponencialmente nos últimos anos, representa um desafio para os produtores de diamantes naturais. Sistemas como o iTraceIT permitem distinguir inequivocamente entre pedras naturais e sintéticas, preservando o valor das gemas extraídas.

O futuro da rastreabilidade diamantífera

A adopção do iTraceIT pela Catoca insere-se numa tendência global. Grandes produtores como a De Beers (através da sua plataforma Tracr) e a Alrosa já implementaram sistemas semelhantes, reconhecendo que a rastreabilidade deixou de ser um diferencial competitivo para se tornar uma exigência do mercado.

Nos próximos anos, é provável que a rastreabilidade se torne obrigatória em muitos mercados, seguindo o exemplo da União Europeia, que está a desenvolver regulamentos rigorosos sobre a devida diligência na cadeia de fornecimento de minerais.

Para Angola, a aposta precoce nesta tecnologia pode representar uma vantagem estratégica, posicionando o país como fornecedor preferencial de diamantes éticos para mercados exigentes.

Integração com o Processo de Kimberley

O iTraceIT complementa e reforça o Processo de Kimberley, do qual Angola é signatária desde 2003. Enquanto o Processo de Kimberley certifica que os diamantes não financiam conflitos armados, o iTraceIT vai mais além, fornecendo um registo detalhado e verificável de todo o percurso da pedra.

Esta dupla certificação – Processo de Kimberley para conformidade legal e iTraceIT para rastreabilidade detalhada – oferece as garantias mais robustas disponíveis actualmente no mercado diamantífero.

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