A banca não gosta das empresas e das famílias

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À entrada da Rua Emílio Mbindi, no Alvalade, bairro tradicional de Luanda , funciona a Churrasqueira
Vanilc.

A Vanilc é uma microempresa. Emprega 10 trabalhadores e suporta uma massa salarial mensal próxima dos dois milhões de kwanzas.

Com cerca de quatro anos de actividade, tornou-se um caso exemplar de sucesso e resiliência no pequeno empreendedorismo urbano. É o resultado directo das poupanças investidas pelo casal Nilton e Osvalda Carvalho, que decidiram transformar um sonho pessoal numa fonte concreta de rendimento para si e para outras seis pessoas.

Do Estado, no entanto, afirmam ter recebido apenas visitas inspectivas, nenhum incentivo, nenhum apoio
estruturado, nenhuma política de fomento.

Se a dupla tivesse acesso a um crédito bancário minimamente funcional, poderiam expandir o negócio. Abrir uma segunda unidade e, naturalmente, criar novos postos de trabalho. Mas esse passo
encontra-se bloqueado por uma realidade conhecida de todos: a quase inexistência de crédito produtivo em Angola.

O acesso ao crédito bancário é, hoje, um dos maiores entraves ao desenvolvimento económico do país.
Economistas e especialistas são unânimes: sem crédito não existe actividade empresarial sustentável.

Contudo, a banca angolana permanece profundamente distante das necessidades reais das famílias e das pequenas e médias empresas. Fala-se da ausência de um verdadeiro ambiente de negócios viabilizador,
das fragilidades dos mecanismos de garantias, da fraca partilha de riscos e da excessiva burocratização dos processos de financiamento.

Paradoxalmente, o sector bancário apresenta níveis elevados de rentabilidade. Em 2024, segundo
dados avançados pelo secretário de Estado do Tesouro, os lucros da banca cresceram cerca de 82 por
cento, numa economia que registou um crescimento modesto de apenas 4 por cento.

A explicação para este desfasamento é simples: a rentabilidade do sector financeiro está essencialmente
ancorada no financiamento ao Estado, através da aquisição de títulos públicos, um investimento de
retorno seguro, fluido e pouco arriscado.

Trata-se de uma fonte de lucro confortável, que retira quase toda a motivação da banca para desenvolver
produtos financeiros orientados ao crédito produtivo, ao microempreendedorismo e ao apoio directo às famílias.

Enquanto isso, histórias como a da Churrasqueira Vanilc multiplicam-se pelo país: negócios viáveis,
trabalhadores dignamente empregados, ideias prontas para crescer , reféns de um sistema financeiro que prefere emprestar ao Estado do que apostar no cidadão.

É por isso urgente que, em Angola, surjam instrumentos eficazes de incentivo ao crédito produtivo. A chamada especulação financeira, ou «economia de casino», tem estado na base do declínio relativo de várias economias ocidentais, justamente por afastar da produção real de bens, serviços e emprego.

Os lucros imediatos da banca, obtidos através de operações seguras e de curto prazo, não terão
sustentabilidade a médio e longo prazos se o sector não se posicionar como verdadeiro parceiro do desenvolvimento nacional.

A actividade bancária pode e deve, em Angola, impactar a economia real, estimulando o crescimento das famílias, dos pequenos negócios e das empresas nacionais. Sem esse alinhamento estratégico, o sistema financeiro continuará a prosperar
numa ilha de rentabilidade artificial, enquanto a economia produtiva permanece carente de fôlego.

Não é por acaso que se tornou perfeitamente aceitável o discurso de empresários, economistas e especialistas que sustentam que a dificuldade de acesso ao crédito em Angola tem, em grande medida, um viés artificial.

Muitos bancos simplesmente evitam financiar a economia produtiva porque isso dá trabalho: exige análise de risco, acompanhamento, proximidade com o cliente. É mais fácil, mais rápido e mais seguro aplicar em títulos do Estado ou lucrar com margens cambiais e com a depreciação da moeda.

Entretanto, milhares de empreendedores como o casal Nilton e Osvalda continuam à espera que alguém, no sistema financeiro, decida finalmente apostar neles e,
por extensão, no futuro económico do país.

* Texto publicado originalmente no Jornal de Angola,
edição de 7 de Dezembro 2025

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