Presidente Câmara Comércio Angola admite: “Corrupção é pior em África e mina investimento transparente”

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Vicente Soares reconhece publicamente em fórum com líderes europeus que corrupção é obstáculo ao desenvolvimento, num momento de rara franqueza. Declarações reflectem crescente consciência de que transparência é pré-requisito para atrair investimento de longo prazo

O Presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Angola, Vicente Soares, reconheceu publicamente esta terça-feira que “a corrupção é pior em África” que noutras regiões do mundo e constitui obstáculo crítico ao investimento transparente, numa declaração excepcionalmente franca feita durante o Fórum Empresarial UE-África realizado em Luanda.

“O investimento transparente é no sentido de que os dinheiros que nós recebermos destes países seja investido de forma transparente e de forma sustentável. Muitas vezes os dinheiros que vêm de outros países são mal investidos e também temos o problema de corrupção. Temos que reconhecer isso”, afirmou Soares em entrevista à margem do fórum, acrescentando que “é um problema mundial, mas em África ou países menos desenvolvidos, a corrupção é pior.”

A admissão pública — rara em fóruns oficiais onde líderes africanos geralmente evitam referências directas a corrupção, preferindo eufemismos como “desafios de governação” ou “necessidade de reformas” — reflecte crescente consciência de que transparência e prestação de contas são pré-requisitos para atrair investimento sustentável de longo prazo.

“Dinheiros são dívidas para os povos e devem ser usados com transparência”

Soares contextualizou a declaração no âmbito das discussões sobre a iniciativa Global Gateway da União Europeia, que promete mobilizar €150 mil milhões para África até 2027, alertando que sem mecanismos robustos de auditoria e rastreabilidade, fundos correm risco de serem desviados.

“Daí que a transparência é importante para que estes dinheiros que venham, que muitas vezes são dívidas para os povos, devem ser utilizados de forma transparente”, sublinhou, referindo-se ao facto de muitos “investimentos” europeus serem na realidade empréstimos que Estados africanos terão que reembolsar — ou seja, dívida pública que recai sobre contribuintes.

O apelo à transparência surge num contexto em que Mahmoud Ali Youssouf, Presidente da Comissão da União Africana, defendeu no mesmo fórum que África necessita “investimentos transparentes” e “acesso transparente aos mercados de capitais”, criticando discriminação no custo de financiamento que países africanos enfrentam.

Risco reputacional vs transparência estratégica

Analistas notam que a declaração de Vicente Soares comporta duplo risco:

Risco de curto prazo:
Reconhecimento público de corrupção pode ser usado por investidores cépticos como justificação para não investir em Angola (“se os próprios angolanos dizem que há corrupção, por que arriscar capital?”).

Ganho de longo prazo:
Transparência e reconhecimento de problemas gera mais confiança que negação sistemática. Investidores sérios valorizam líderes que identificam problemas e trabalham em soluções em vez de negarem realidade.

“A estratégia de Soares parece ser: ‘Sim, temos corrupção, mas estamos conscientes e comprometidos em combatê-la’ — mensagem mais credível que ‘não há corrupção aqui'”, avalia especialista em governação.

Reformas prometidas vs resultados práticos

O Presidente João Lourenço, que chegou ao poder em 2017 prometendo combate implacável à corrupção, lançou múltiplas iniciativas: — Criação de tribunais especializados em crimes económicos
— Processos contra figuras de alto perfil (ex-governadores, ex-ministros, filhos do ex-Presidente)
— Afastamento de Isabel dos Santos de empresas estatais
— Reforma de Sonangol e outras estatais
— Adesão a iniciativas internacionais de transparência (ITIE — Transparência Indústrias Extractivas)

Mas percepção pública é que corrupção persiste: — Processos judiciais são lentos e selectivos
— Impunidade para muitos casos
— Corrupção pequena (propinas a funcionários, polícias) continua quotidiana
— Recuperação de activos desviados é mínima

Apelo europeu por “parcerias equitativas e transparentes”

Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia, sublinhou no fórum que Europa procura “parcerias mutuamente benéficas” baseadas em “investimentos que constroem valor localmente em vez de extraí-lo” — crítica implícita a modelos de investimento (frequentemente associados à China) que geram “armadilhas de dívida” e falta de transparência.

A presidente da CE não mencionou directamente corrupção mas enfatizou que Global Gateway inclui mecanismos de auditoria e prestação de contas para garantir que fundos são usados conforme planeado.

Mahmoud Ali Youssouf (Comissão UA) foi mais directo: “L’accès au marché des capitaux doit être transparent” (Acesso a mercados de capitais deve ser transparente), criticando discriminação que África enfrenta em mercados financeiros internacionais.

Lições do fórum: diálogo franco

Vicente Soares concluiu que a principal lição do Fórum UE-África para Angola é “o diálogo” entre sector público, sector privado e parceiros internacionais.

“Lições são o diálogo, portanto, o grande objetivo aqui é o diálogo, sector público, sector privado e entre o próprio sector privado. Este diálogo vai permitir ganhar experiência de uns e de outros”, afirmou, sublinhando que reconhecer problemas abertamente é primeiro passo para encontrar soluções conjuntas.

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