Inflação recua para 14,2% em 2026 mas Standard Bank alerta para retorno a 18% em 2028

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Banco projecta alívio temporário nos preços impulsionado por estabilidade cambial, mas prevê ressurgimento da pressão inflacionária a partir de 2028 com desvalorização do kwanza. Ciclo de queda leva inflação de 19,7% para mínimo de 11,8% em 2027.

A inflação angolana deverá recuar para 14,2% no final de 2026, num ciclo de queda que a levará a um mínimo de 11,8% em 2027, mas voltará a acelerar para 18,2% em 2028, projecta o Standard Bank em previsões macroeconómicas divulgadas na última semana, durante a segunda edição do Briefing Económico, sob o tema “Angola para além do Oil & Gas”.

A trajectória descendente da inflação — que atingiu 19,7% em termos homólogos no segundo trimestre de 2025 — será interrompida no horizonte de três anos, quando a desvalorização cambial e o fim do ciclo de estabilidade do kwanza provocarem ressurgimento da pressão sobre os preços, alerta o banco.

“A estabilidade cambial tem permitido a redução da inflação e o corte das taxas de juro”, afirmou Fáusio Mussá, Economista Chefe do Standard Bank para Angola, Moçambique e República Democrática do Congo, sublinhando que a manutenção da taxa de câmbio em níveis controlados é o principal factor de contenção inflacionária no curto e médio prazo.

Queda de 7,9 pontos percentuais até 2027

As projecções do Standard Bank apontam para redução progressiva da inflação nos próximos trimestres: 17,1% no final de 2025, descendo para 14,2% em 2026 e atingindo o ponto mais baixo de 11,8% no quarto trimestre de 2027 — uma queda acumulada de 7,9 pontos percentuais face aos níveis actuais.

A trajectória de desinflação acompanha a estabilização da taxa de câmbio (mantida pelo Banco Nacional de Angola em 921,1 kwanzas por dólar até ao terceiro trimestre de 2027) e o controlo dos preços dos combustíveis, apesar de o Governo ter pausado a remoção total dos subsídios ao sector.

Contudo, a partir de 2028, o cenário inverte-se: a inflação acelera para 13,4% no primeiro trimestre, sobe para 15,5% no segundo trimestre, atinge 17,3% no terceiro e fecha o ano em 18,2% — praticamente regressando aos níveis de 2025.

Desvalorização cambial e inflação importada em 2028

O ressurgimento da inflação em 2028 está directamente associado à desvalorização projectada do kwanza, que passará de 921,1 AOA/USD no terceiro trimestre de 2027 para 1.097 AOA/USD no final de 2028 — uma perda de valor de 19,1% em 15 meses.

“A desvalorização cambial gera inflação importada”, explicam analistas do Standard Bank, destacando que Angola importa parte significativa dos bens de consumo (alimentos processados, medicamentos, combustíveis refinados, produtos manufacturados), cujos preços em kwanzas sobem automaticamente quando o dólar se valoriza face à moeda nacional.

A pressão inflacionária será agravada pelo aumento das taxas de juro — o BNA subirá a taxa directora de 12,5% (mínimo em 2027) para 18,5% no final de 2028 — numa tentativa de conter a aceleração dos preços através do encarecimento do crédito e contenção da procura.

Alimentos e combustíveis determinam trajectória

Historicamente, a inflação angolana é fortemente influenciada por alimentos (que representam ~40% do cabaz de consumo) e combustíveis, cujos preços dependem tanto de factores externos (câmbio, preço internacional do petróleo) como de políticas domésticas (subsídios, liberalização de preços).

Gráficos do Standard Bank mostram correlação directa entre variações mensais da inflação e preços de gasolina e gasóleo: períodos de ajustamento de combustíveis (2016-2018, 2021-2023) coincidem com picos inflacionários, enquanto estabilização de preços (2024-2025) acompanha moderação.

A inflação de alimentos, que chegou a superar 30% em termos homólogos durante crises cambiais de 2016 e 2020, deverá manter-se em níveis de dois dígitos mesmo no período de menor inflação geral (2026-2027), dado que produção agrícola doméstica permanece insuficiente para substituir importações.

Política monetária acompanha ciclo inflacionário

O ciclo de inflação previsto pelo Standard Bank condiciona directamente a actuação do Banco Nacional de Angola: taxas de juro serão cortadas agressivamente enquanto inflação recua (2025-2027), mas subirão abruptamente quando pressão sobre preços retornar (2028).

As previsões indicam que a taxa directora do BNA — actualmente em 19,5% — descerá para 18% no final de 2025, 14,5% em 2026, e atingirá mínimo de 12,5% no segundo semestre de 2027, antes de reverter para 13,5% no primeiro trimestre de 2028 e acelerar para 18,5% no final do ano.

“A leitura que fazemos é que passa a haver um grande alinhamento entre a política fiscal e a política monetária para ajudar a estabilizar a economia”, afirmou Fáusio Mussá, sublinhando que coordenação entre Ministério das Finanças e BNA visa evitar choques que desestabilizem crescimento ou disparem inflação.

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