Álvaro Cardoso, Íris B. Chocolate, Suzana Sousa e Kiluanje Kia Henda conversam com historiador Adriano Mixinge sobre resistência criativa num país que celebra crude mas deixa ateliês desabar
Há perguntas que Angola evita fazer há décadas. Perguntas sobre ruínas imateriais: memórias mutiladas, utopias abortadas, futuros prometidos que nunca chegaram. Como: O que aconteceu com a arte revolucionária depois da revolução ter sido capturada? Ou: Como criam artistas num país que ergue arranha-céus mas deixa ateliês desabar?
A partir de 4 de Novembro, durante quatro terças-feiras, a NESR Art Foundation promove “Arquivos do Tempo” — série de conversas públicas que reúne quatro vozes geracionais para um acerto de contas com cinquenta anos de contradições, silêncios e resistências no campo das artes visuais angolanas.
Quatro vozes, meio século de contradições
Álvaro Cardoso (n. 1963) — pintor, escultor — testemunhou tudo: da euforia revolucionária à corrupção sistémica, do idealismo à mercantilização. Sobreviveu como artista nos anos 80 (sem material, sem mercado, sem esperança) e atravessou guerra, socialismo, capitalismo selvagem. Pergunta-chave: O que mudou, verdadeiramente, desde 1975?
Íris B. Chocolate (n. 1985) — performer, activista — nasceu durante a guerra mas não a viveu conscientemente. A sua prática artística é visceralmente política: corpo negro feminino como território de resistência, performance como recusa da docilidade. Pergunta incómoda: Por que museus angolanos exibem mais arte europeia que angolana? Por que mulheres artistas são sistematicamente invisibilizadas?
Suzana Sousa (n. 1988) — artista plástica, curadora — representa a geração pós-guerra que deveria herdar o “dividendo da paz” mas herdou precariedade disfarçada de crescimento. Trabalha com instalação, colagem, assemblage — técnicas que dependem de reapropriação de materiais descartados, refugo urbano. Dilema: Como fazer arte quando galerias fecham e coleccionadores preferem arte estrangeira?
Kiluanje Kia Henda (n. 1979) — fotógrafo, artista conceptual — é caso raro: angolano que furou a bolha local e projectou-se globalmente (Tate Modern, MoMA, Bienal de Veneza). A sua obra explora utopias falhadas, precariedade como condição existencial. Questão fulcral: Por que, num país de 36 milhões, só punhado de nomes consegue visibilidade internacional?
Arqueólogo de memórias incómodas
Moderador Adriano Mixinge — historiador, curador, crítico — dedica a vida a desenterrar artistas apagados, movimentos marginalizados, episódios suprimidos. Pratica historiografia incómoda: vai aos arquivos (quando existem), questiona narrativas consensuais, faz as perguntas certas — não as que geram respostas fáceis, mas as que geram silêncios eloquentes.
Não é evento cultural. É urgência histórica
“Arquivos do Tempo” não é celebração a crítica nem nostalgia. É tentativa honesta de balanço: O que fizemos bem? Mal? O que deixámos por fazer? É confronto intergeracional (utopia revolucionária vs desilusão herdada), reflexão sobre infraestrutura ausente (por que não há museus dignos? mercado estruturado?), questionamento de políticas públicas (Ministério da Cultura faz o quê pela arte visual?).
Angola contemporânea é país de contradições empilhadas: sexto maior produtor de petróleo africano mas 36% na pobreza; arranha-céus em Luanda mas falta água e electricidade; universidades formam artistas mas não há empregos. Artistas habitam estas contradições — e produzem arte apesar de, ou precisamente por causa de elas.





