FMI volta a alertar: inflação pode chegar aos 21,6% e PIB estagna em 2,1% enquanto governo prevê 4,14%

Data:

Divergência radical entre projecções oficiais e previsões da instituição multilateral expõe vulnerabilidades estruturais da economia angolana. Queda na produção petrolífera e preço do crude abaixo do orçamentado pressionam receitas fiscais e agravam desequilíbrio cambial.

A distância entre a visão do Fundo Monetário Internacional (FMI) e as projecções do Banco Nacional de Angola (BNA) e do Governo ampliou-se significativamente, revelando divergências radicais sobre o desempenho económico esperado para o final de 2025 e para 2026 que reflectem diagnósticos opostos sobre a trajectória macroeconómica do país.

O FMI reviu em baixa o crescimento da economia angolana para 2,1% em 2025 e 2026, numa actualização recente das Perspectivas Económicas Mundiais, enquanto o BNA projecta uma inflação de 17,5% e o Governo espera por uma taxa em volta dos 16,6%. Contudo, o FMI aponta para uma inflação de 21,6% até final de 2025, um diferencial de 4,1 pontos percentuais face às projecções do CPM (Comité de Política Monetária), num cenário que sugere pressões desinflacionistas bem menos robustas do que antecipado pelas autoridades angolanas.

A divergência não é meramente técnica. Ela reflete compreensões fundamentalmente distintas sobre os factores que determinam a dinâmica macroeconómica de Angola e, por extensão, sobre a capacidade de o país alcançar estabilidade nos próximos trimestres.

PIB estagnado versus crescimento anunciado

A projecção do FMI de 2,1% de crescimento para 2025 e 2026 representa uma revisão profunda em baixa face aos 4,14% anunciados pelo Governo no Orçamento Geral do Estado. A instituição multilateral reviu em baixa a projecção preliminar de crescimento de 3% aquando da consulta ao abrigo do Artigo IV de 2024 para 2,4% em Maio de 2025, e agora apresenta uma previsão ainda mais pessimista de 2,1%.

A razão apontada pelo FMI é explícita: queda dos preços do petróleo e deterior das condições de financiamento externo. A instituição revisou em baixa o preço médio do barril de petróleo para 66,94 USD/barril, abaixo dos 69,76 USD/barril previsto no início do ano, já que este preço está abaixo dos 70 USD por barril definido pelo Executivo no OGE 2025, um descontrolo que “poderá pressionar a capacidade do Governo executar as políticas de gastos e acelerar a depreciação cambial”.

A realidade dos números confirma o cenário mais sombrio. A produção de petróleo em Angola caiu para menos de um milhão de barris diários pela primeira vez desde 2023, com a produção de Julho em 30.961.452 barris, correspondendo a uma média diária de 998.757 barris contra 1.073.542 BOPD previstos. No segundo trimestre de 2025, Angola exportou 83,6 milhões de barris de petróleo bruto e encaixou 5,6 mil milhões de dólares, uma redução de 13,6% face ao trimestre homólogo.

Esta contracção na produção não é temporária. De acordo com o Centro de Investigação Económica da Universidade Lusíada de Angola (CINVESTEC), a produção petrolífera angolana tem uma perspectiva “muito negativa” até final de 2032, com o índice do setor petrolífero nos primeiros três meses de 2025 a situar-se cerca de 3% abaixo do primeiro trimestre de 2022.

Inflação obstinada acima de 18%

A taxa de inflação em Angola diminuiu para 18,88% em Agosto, face a 19,48% em Julho de 2025, um movimento positivo mas insuficiente para afastar a ameaça. A trajectória descendente que o BNA e o Governo anunciavam não está a materializar-se ao ritmo esperado, e o FMI antecipa que a inflação permanecerá elevada até final do ano, potencialmente terminando 2025 em 21,6%.

O diferencial entre a previsão do FMI (21,6%) e a do BNA (17,5%) é dramaticamente significativo. Não se trata de uma margem de erro típica de previsões macroeconómicas. É um abismo que sugere ou que as autoridades angolanas subestimam a magnitude das pressões inflacionárias remanescentes, ou que o FMI antecipa eventos ou choques que ainda não se materializaram.

A inflação em Julho situava-se ainda nos 19,48%, o desemprego em 28,8% e o índice de pobreza monetária nos 40,6%, segundo análise recente, configurando um cenário que mesmo com trajectória descendente da inflação continua a exigir “prudência na condução da política monetária”.

Câmbio sob pressão e desequilíbrio externo

A queda na produção petrolífera não apenas reduz receitas fiscais – afecta directamente a oferta de divisas estrangeiras no mercado cambial. A rápida escalada das tensões comerciais e os níveis extremamente elevados de incerteza política deverão ter um impacto significativo na actividade económica mundial, segundo o FMI, agravando as dificuldades de financiamento externo.

Analistas apontam correctamente que “a queda de preços e a produção dos principais produtos de exportação da economia angolana deverão desempenhar um papel activo” na deterioração da conta corrente. O FMI reviu em alta a inflação de final de período de 18,9% para 20,1% (numa actualização de Abril), uma dinâmica que reflecte pressões cambiais persistentes.

Saldo da conta corrente em deterioração

As projecções do FMI indicam um estreitamento do superavit da conta corrente. De um saldo de 0,9% do PIB em 2025, a instituição antecipa uma contracção para 0,5% em 2026. Esta dinâmica reflete a equação fundamental que define a vulnerabilidade externa de Angola: receitas petrolíferas declinantes, necessidades de divisas estrangeiras para pagar dívida externa e serviço de importações, e capacidade limitada de o sector não petrolífero compensar a queda do sector dominante.

A realidade observada nos primeiros três trimestres de 2025 valida esta análise. O Orçamento Geral de Estado 2025 fixou o preço do barril de petróleo em 70 USD/bbl, com uma produção média diária de 1,098 MBD, esperando arrecadar cerca de USD 11.801.216.589, mas ambas as premissas falharam: o preço está abaixo de 70 USD, e a produção está abaixo de 1,098 MBD.

Divergências de diagnóstico com implicações críticas

A distância entre as previsões do FMI e as do Governo não é académica. As políticas macroeconómicas adoptadas – política monetária, política orçamental, gestão cambial – são construídas sobre pressupostos sobre o crescimento esperado, a inflação, e as condições externas.

Se o FMI estiver certo (crescimento de 2,1%, inflação de 21,6%), as implicações são:

  • Espaço fiscal reduzido: O Governo enfrenta receitas inferiores às orçamentadas, forçando ajustamentos orçamentais
  • Pressão cambial sustentada: Oferta insuficiente de divisas alimenta procura especulativa
  • Política monetária mais restritiva: O BNA poderá precisar manter taxas elevadas por mais tempo
  • Pobreza acrescida: Com inflação superior e crescimento inferior, o bem-estar das populações deteriora-se

Se o Governo e o BNA estiverem certos (crescimento de 4,14%, inflação de 17,5%), as implicações são:

  • Folga orçamental: Receitas mais próximas das previsões permitem investimento público
  • Normalização cambial: Pressão cambial mais gerível
  • Alívio monetário possível: BNA pode relaxar políticas restritivas
  • Ganhos de bem-estar: Maior crescimento e inflação mais baixa beneficiam populações

Incerteza estrutural e falta de convergência

O facto de instituições com acesso aos mesmos dados públicos chegarem a conclusões tão diferentes sugere que o problema não é simplesmente falta de informação, mas interpretações radicalmente distintas sobre a sustentabilidade dos fundamentos macroeconómicos angolanos.

A narrativa do Governo baseia-se numa expectativa de recuperação através de reformas estruturais, diversificação económica, e investimento em sectores não petrolíferos. A narrativa do FMI baseia-se na observação de que a recuperação petrolífera de 2024 (PIB cresceu 4,4%) foi um pico temporário, e que o declínio estrutural da produção petrolífera não será compensado por ganhos suficientes no sector não petrolífero a curto prazo.

Os dados acumulados em 2025 – queda acelerada de produção petrolífera, preços abaixo do orçamentado, inflação obstinadamente elevada – oferecem suporte à narrativa mais pessimista.

Box

O grande desacordo: Cenários para fim de 2025

IndicadorFMIBNA/GovReal (Set 2025)
PIB 20252,1%4,14%TBD
Inflação (fim ano)21,6%17,5%18,88% (Ago)
Produção petróleoDeclínioEstável998.757 BOPD (Jul)
Preço petróleo66,94 USD70 USD~65-68 USD
Conta Corrente 20260,5% PIBTBDPressão cambial
spot_img

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

spot_img

Partilhe com amigos:

Notícias no E-Mail

spot_imgspot_img

Popular

Artigos relacionados
Artigos relacionados

Cabo Verde. A nação que multiplica fronteiras pela diáspora: no centro do atlântico ao radar do mundo

Durante séculos, Cabo Verde foi ponto de passagem. Entrepostos...

Petróleo Brent ultrapassa 87 dólares e sobe quase 21% na semana

O preço do petróleo Brent, que serve de referência...

Mercado de lubrificantes movimenta 150 milhões de dólares todos os anos

O ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás informou,...

TAAG abre hoje venda de bilhetes para rota Luanda-Abidjan

A TAAG procede na tarde desta sexta-feira, numa das...