Terras Altas de Angola são a verdadeira nascente do rio Zambeze

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Estudo científico publicado em revista internacional revela que 70% da água das Cataratas Vitória tem origem angolana, redefinindo a geografia hidrológica da África Austral e colocando o país no centro de um dos sistemas fluviais mais críticos do continente

As terras altas de Angola, e não a Zâmbia como se assumiu durante séculos, constituem a verdadeira nascente do rio Zambeze, o quarto maior sistema fluvial africano. A conclusão consta de um estudo inovador publicado na revista científica internacional Hydrology and Earth System Sciences, que traçou pela primeira vez com rigor a trajectória completa do rio até à sua origem e situa o planalto angolano no coração de um dos sistemas hidrológicos mais vitais do continente.

A investigação, conduzida por equipas do The Wilderness Project, do National Geographic Okavango Wilderness Project e do The Wild Bird Trust, em parceria com os governos de Angola, Zâmbia, Zimbabué, Moçambique e Botsuana, revela que o rio Lungwebungu, nas terras altas angolanas, se estende por 342 quilómetros para além da nascente tradicionalmente reconhecida do Zambeze, na Zâmbia.

Mais significativo ainda: a sub-bacia do Alto Zambeze, situada em território angolano, contribui com 70% do caudal total do rio acima da Planície de Inundação de Barotse. Em termos práticos, isto significa que sete em cada dez litros de água que caem sobre as emblemáticas Cataratas Vitória têm origem em Angola, numa região conhecida localmente como Lisima Lya Mwono – “a fonte da vida”, na língua Luchazi.

“Esta descoberta destaca a natureza profundamente interligada da água doce da África Austral e coloca Angola numa posição de responsabilidade continental”, afirmou Elves Zambela, director-geral da Fundação Lisima, organização angolana sem fins lucrativos que lidera a protecção da região.

A chamada Torre de Água das Terras Altas de Angola (AHWT, na sigla em inglês) serve de região de origem para múltiplos sistemas fluviais que atravessam seis países da África Austral. Para além do Zambeze, nascem aqui o rio Cubango-Okavango, que forma o célebre Delta do Okavango no Botsuana; o rio Cuanza, principal artéria hidrográfica nacional; e os rios Cubango, Kwando e Cunene. Até o poderoso sistema do rio Congo, o segundo maior do mundo em termos de caudal, recebe afluentes significativos desta região, conferindo-lhe uma importância verdadeiramente continental.

Zonas húmidas intocadas garantem qualidade da água

As terras altas angolanas possuem uma característica que amplifica a sua importância hidrológica: extensos sistemas de zonas húmidas e turfeiras antigas que permanecem em grande parte intocados. Estas áreas, situadas maioritariamente na província do Moxico, actuam como filtros naturais, processando sedimentos e nutrientes e mantendo a qualidade da água que alimenta toda a bacia hidrográfica.

O estudo documenta como estas águas mais limpas, ao fundirem-se com o curso principal do Zambeze, ajudam a diluir a poluição proveniente de operações de mineração artesanal no rio Kabompo, na Zâmbia, onde a qualidade da água local foi afectada. O caudal perene destas zonas húmidas garante ainda uma disponibilidade hídrica consistente ao longo do ano para os oito países e 40 milhões de pessoas que dependem da Bacia do Zambeze.

Entre 2015 e 2024, as equipas científicas realizaram mais de 20 expedições na AHWT e em toda a Bacia do Zambeze, estabelecendo as linhas de base hidrológicas e ecológicas mais detalhadas alguma vez realizadas na região. Isto incluiu as primeiras medições científicas do caudal em muitos afluentes angolanos, combinadas com imagens de satélite de alta resolução.

Biodiversidade extraordinária sob pressão

A área de Lisima Lya Mwono abrange aproximadamente 53.000 quilómetros quadrados na província do Moxico, a altitudes entre os 1.142 e os 1.681 metros. A região alberga uma extraordinária diversidade biológica: 92 espécies de peixes, 64 répteis, 34 anfíbios, 407 aves e 58 mamíferos, incluindo espécies ameaçadas como o mabeco (Lycaon pictus) e o abutre-real (Torgos tracheliotus).

Estudos científicos recentes revelaram 73 espécies até então desconhecidas pela ciência, com pelo menos outras 275 potencialmente não documentadas, o que realça a importância global de Angola como centro de conservação.

Contudo, a AHWT enfrenta pressões crescentes, incluindo actividades de desenvolvimento, extracção de recursos e alterações nos padrões climáticos. “A protecção destas águas de origem exigirá investigação científica e monitorização contínuas, bem como colaboração entre as comunidades e nações que partilham estas águas”, sublinhou Vladimir Russo, assessor sénior da Fundação Lisima.

A investigação esclarece como as bacias hidrográficas transcendem fronteiras geopolíticas, ligando comunidades através de recursos hídricos partilhados, onde as condições a montante – em Angola – influenciam directamente os resultados a jusante em vários países. Desde as primeiras gotas que se formam em Lisima Lya Mwono até à cascata das Cataratas de Vitória e ao Oceano Índico, a viagem de 2.574 quilómetros do Zambeze demonstra como as terras altas angolanas são essenciais para a salvaguarda do futuro de um dos sistemas fluviais mais importantes de África.

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