Encontro entre o secretário de Estado para o Planeamento, Luís Epalanga, e o vice-ministro de Estado japonês, Tsuji Kiyoto, em Nova Iorque, abriu espaço para colaboração em hidrogénio verde, eficiência energética e redes inteligentes. Sem compromissos financeiros anunciados, aproximação permanece na fase exploratória
Angola e o Japão manifestaram interesse em aprofundar a cooperação nos domínios do planeamento estratégico, do desenvolvimento sustentável e da transição energética, num encontro realizado na terça-feira, 14 de Julho, à margem dos trabalhos das Nações Unidas, em Nova Iorque.
A reunião, convocada por iniciativa japonesa, juntou o secretário de Estado para o Planeamento, Luís Epalanga, e o vice-ministro de Estado do Japão, Tsuji Kiyoto, e permitiu às duas delegações identificar áreas de interesse comum, com enfoque no crescimento económico, na diversificação das economias e na promoção de soluções energéticas mais sustentáveis.
Do lado angolano, foram apresentados os principais projectos em curso nas áreas da produção hidroeléctrica, energia solar e biomassa, com destaque para os investimentos realizados no reforço da utilização de fontes renováveis. A delegação japonesa partilhou a experiência do país em eficiência energética, desenvolvimento do hidrogénio verde e aplicação de tecnologias de redes inteligentes para optimizar a produção, gestão e distribuição de energia.
A lógica da aproximação é clara no papel. Angola dispõe de recursos naturais que sustentam ambições de transição energética — potencial hidroeléctrico significativo no rio Kwanza, exposição solar entre as mais elevadas do continente, e disponibilidade de biomassa —, mas carece de tecnologia, capital paciente e capacidade técnica para converter esse potencial em capacidade instalada e, sobretudo, em cadeias de valor exportáveis.
O Japão, por seu turno, é um dos mercados que mais agressivamente aposta no hidrogénio como vector energético da descarbonização, dispõe de tecnologia madura em eficiência energética e redes inteligentes, e tem historicamente utilizado cooperação técnica e financiamento concessional como instrumentos de política externa em África, nomeadamente através da TICAD (Conferência Internacional de Tóquio sobre o Desenvolvimento de África).
Contudo, o comunicado sobre o encontro não menciona montantes, prazos, memorandos assinados ou projectos específicos identificados para execução. Não foi divulgado se as partes acordaram calendário para reuniões técnicas subsequentes, nem se está prevista missão empresarial japonesa a Luanda ou visita angolana a Tóquio.
Esta ausência de concretização não é anómala em encontros bilaterais realizados à margem de fóruns multilaterais, que funcionam tipicamente como sondagem política prévia a negociações técnicas. Mas coloca a aproximação, nesta fase, no plano da intenção — não do compromisso.
De todos os temas abordados, o hidrogénio verde é o que apresenta maior potencial transformador e, simultaneamente, maior distância face à realidade operacional angolana.
O conceito é conhecido: utilizar electricidade renovável para separar hidrogénio da água por electrólise, produzindo combustível sem emissões de carbono, transportável para mercados que precisam descarbonizar indústria pesada, transportes marítimos e aviação. Angola reúne, em teoria, dois dos ingredientes essenciais — energia renovável abundante e acesso ao Atlântico para exportação.
Mas os obstáculos são substanciais. A produção de hidrogénio verde exige excedente de energia renovável — e Angola ainda não garante fornecimento eléctrico estável e universal à própria população. Exige água em quantidade e qualidade — recurso que compete com consumo humano e agricultura. Exige infraestrutura de liquefacção, armazenamento e transporte marítimo especializada, que não existe no país. E exige contratos de compra de longo prazo com compradores internacionais, que só se materializam quando há credibilidade regulatória e financeira demonstrada.
Países como a Namíbia, o Egipto e Marrocos avançaram significativamente nesta corrida, com projectos-piloto, memorandos vinculativos e parceiros industriais identificados. Angola permanece na fase do diálogo político.
Redes inteligentes: o problema antes da solução
A menção japonesa a tecnologias de redes inteligentes — sistemas digitais que optimizam produção, distribuição e consumo de electricidade — toca num dos pontos mais sensíveis do sector energético angolano.
O país investiu massivamente em geração nos últimos quinze anos, com destaque para a barragem de Laúca e o projecto de Caculo Cabaça, mas a rede de transporte e distribuição não acompanhou. O resultado é conhecido: perdas técnicas e comerciais elevadas, cortes frequentes de fornecimento, e electricidade gerada que nunca chega ao consumidor final ou chega sem ser facturada.
Tecnologia de redes inteligentes pode, em teoria, atenuar estas perdas. Mas exige rede física funcional como base — não se digitaliza o que não existe. Sem investimento prévio em infraestrutura de transporte e distribuição, contadores inteligentes e sistemas de gestão avançados resolvem pouco.
O encontro insere-se nos esforços do Executivo angolano para fortalecer a cooperação internacional e promover parcerias alinhadas com as prioridades nacionais de desenvolvimento e transição energética — agenda que ganhou urgência com o declínio estrutural da produção petrolífera e a compressão das receitas fiscais associadas.
Angola procura, simultaneamente, atrair capital ocidental e asiático não-chinês, num movimento de diversificação de parceiros que se reflecte em iniciativas como o Corredor do Lobito (com apoio norte-americano e europeu) e em aproximações a economias como o Japão e a Coreia do Sul.
A questão que permanece por responder é se estas aproximações se traduzem em investimento efectivo ou se ficam pelo comunicado diplomático. A resposta virá dos próximos meses — e dependerá menos de intenções manifestadas em Nova Iorque do que de reformas concretas em Luanda que reduzam risco percebido e tornem projectos financiáveis.





