Por: Henrique Costa, Director de Urbanização Mitrelli
Pode o crescimento populacional ser uma vantagem competitiva?
Em África, esta questão assume especial relevância. O continente concentra a população mais jovem do mundo e será responsável por uma parte significativa do crescimento demográfico global nas próximas décadas.
Quando avaliamos a evolução demográfica, existe uma tendência para a reduzir a uma leitura quantitativa, muitas vezes associada ao défice existente. No entanto, a demografia determina hoje uma transformação estrutural nas necessidades, aspirações e escolhas das sociedades. À medida que as populações crescem, se urbanizam e se tornam progressivamente mais jovens, aumentam igualmente as exigências sobre os sistemas que sustentam a vida quotidiana: habitação, educação, saúde, mobilidade, energia e emprego.
Esta realidade exerce uma pressão crescente sobre as cidades, exigindo soluções de planeamento urbano capazes de antecipar, estruturar e responder simultaneamente aos desafios actuais e às necessidades das próximas gerações.
Ao longo de mais de uma década, a Mitrelli tem desenvolvido uma experiência consolidada na transformação destes desafios em oportunidades. Através da concepção e implementação de centralidades e ecossistemas urbanos integrados, tem contribuído para a criação de comunidades planeadas, funcionais e sustentáveis em Angola. Este modelo permite não apenas colmatar as necessidades habitacionais, mas sobretudo criar territórios preparados para acolher o crescimento populacional, promover inclusão social e dinamizar a actividade económica.
Todos os dias, milhares de jovens africanos levantam-se com as mesmas aspirações: construir uma carreira, criar uma família, desenvolver um negócio e participar activamente no futuro dos seus países. O tema do Dia Mundial da População de 2026, recentemente assinalado, “Realizar as esperanças e aspirações dos jovens – hoje e para o futuro”, recorda-nos precisamente que as estatísticas demográficas representam pessoas com expectativas concretas: acesso à habitação, emprego, educação, saúde e melhores condições de vida. A ausência destes elementos limita a capacidade de concretização de projectos de vida, restringe a formação de famílias e reduz a participação plena na economia.
Foi dentro desta visão de desenvolvimento que a Mitrelli, enquanto parceiro estratégico do Estado angolano, implementou 13 centralidades em diferentes províncias de Angola, correspondendo a cerca de 19.000 unidades habitacionais, com capacidade para acolher aproximadamente 133.000 residentes e lançou recentemente a 14.ª Centralidade, em Mbanza Congo. Estes projectos constituem núcleos urbanos, que integram escolas, unidades de saúde, infra-estruturas de água, energia e saneamento, bem como áreas de lazer e espaços comerciais, configurando verdadeiras comunidades que promovem desenvolvimento económico e inclusão social.
Voltando à questão inicial, importa clarificar que o crescimento populacional não é, por si só, uma ameaça nem uma garantia de prosperidade. A diferença entre uma pressão demográfica e uma vantagem competitiva reside na capacidade de criar territórios preparados para acolher essa população e potenciar as suas competências. No 13.º Fórum Urbano Mundial (WUF), esta visão foi amplamente reforçada: não existe desenvolvimento sustentável sem urbanização sustentável, e não existe urbanização sustentável sem habitação adequada.
Este cenário coloca África no centro da economia global futura e reforça a afirmação de que este será o “século de África”, não apenas pela dimensão da sua população, mas pelo potencial do seu dividendo demográfico. Contudo, esta vantagem só se concretiza com a transformação da juventude em capital humano produtivo. Um processo que começa, na maioria das vezes, com o acesso a uma habitação digna.
De facto, a relação entre urbanização, habitação e crescimento económico está amplamente documentada. Dados da OCDE indicam que a urbanização contribuiu de forma significativa para o aumento do PIB per capita em África, tendo sido responsável por cerca de 30% do seu crescimento ao longo das últimas duas décadas. Esta é mais uma evidência que a urbanização não deve ser entendida apenas como consequência do crescimento populacional, mas como um instrumento estratégico de desenvolvimento.
As cidades são o espaço onde o potencial humano se transforma em actividade económica. É nelas que se concentram emprego, conhecimento, inovação e redes de produção. No contexto africano, serão também os principais centros de criação de novos mercados, cadeias de valor e economias emergentes. Porém, para que cumpram esta função, precisam de ser planeadas, inclusivas e capazes de acompanhar a velocidade das transformações demográficas.
A habitação, por sua vez, quando integrada num planeamento urbano estruturado, passa a ser uma plataforma de desenvolvimento, pois aproxima pessoas de serviços, reduz custos de mobilidade, melhora o acesso à educação e à saúde e cria condições para o surgimento de actividade económica. É este efeito cumulativo que transforma indivíduos em agentes económicos activos e territórios em motores de crescimento.
Para África, esta transformação exige uma abordagem assente em dois vectores complementares. O primeiro passa pelo desenvolvimento planeado de novos assentamentos humanos, capazes de antecipar o crescimento populacional e garantir qualidade de vida através da provisão estruturada de habitação, infra-estruturas e serviços essenciais. Planear antes de ocupar é, neste contexto, a forma mais eficiente de evitar urbanização desordenada e promover um desenvolvimento territorial equilibrado.
O segundo vector incide sobre a formalização e qualificação dos assentamentos informais e periurbanos, cuja transformação representa uma das maiores oportunidades de desenvolvimento urbano em África.
A resposta passa pela regularização fundiária, melhoria das infra-estruturas, expansão dos serviços básicos e integração destes territórios na cidade formal. Mais do que uma intervenção urbanística, trata-se de uma medida de inclusão económica e social, capaz de valorizar activos existentes, promover investimento e dinamizar economias locais e melhorar a qualidade de vida de milhões de cidadãos.
Em Angola, esta abordagem tem vindo a ganhar expressão, demonstrando que esta transformação é possível quando existe visão estratégica, capacidade de execução e articulação entre o sector público e o sector privado. O país direcciona cerca de 7,5% do PIB para o sector residencial, uma das maiores áreas de investimento público, e já construiu aproximadamente 350 mil unidades habitacionais. Mais relevante do que o volume é o impacto sistémico: cada unidade habitacional gera entre 5 a 7 empregos directos e indirectos, contribui para a fixação populacional e aumenta a produtividade.
De igual modo, o Programa Nacional de Habitação, enquadrado no Plano de Desenvolvimento Nacional, tem consolidado a aposta em centralidades e soluções habitacionais estruturadas, complementado por políticas que incentivam o envolvimento do sector privado, a redução de custos de construção e modelos de auto-construção dirigida, direccionadas maioritariamente para a população jovem.
A reabertura da delegação do UN-Habitat em Angola, em 2025, reforça esta trajectória, trazendo assistência técnica e novas oportunidades de financiamento para soluções urbanas mais inclusivas e sustentáveis.
Ainda assim, a escala do desafio exige uma resposta colectiva. Nenhuma entidade conseguirá, isoladamente, responder às necessidades futuras, tornando as parcerias público-privadas um instrumento central na complexidade da transformação urbana. Enquanto o sector público assegura enquadramento regulatório, definição de prioridades e estabilidade institucional, o sector privado aporta capacidade de investimento, inovação e execução.
Estas parcerias estendem-se a múltiplas dimensões, incluindo habitação, infra-estruturas complementares, mobilidade, gestão de resíduos, digitalização de serviços e desenvolvimento económico local, mas a sua eficácia depende de princípios claros: transparência, segurança jurídica, planeamento integrado e participação activa das comunidades. Sem esta articulação, o crescimento populacional tende a traduzir-se em pressão sobre os territórios; com ela, pode afirmar-se como uma vantagem competitiva.
Num país como Angola, onde o crescimento demográfico continuará a ser um dos principais motores da transformação económica e social, a experiência da Mitrelli, aliada a um profundo conhecimento do território e a capacidade de desenvolver ecossistemas urbanos integrados, posiciona a empresa como um parceiro estratégico na construção de cidades mais inclusivas, resilientes e preparadas para o futuro.
O reconhecimento internacional da Centralidade Teresa Afonso Gomes, no Bengo, distinguida pelo UN-Habitat como uma boa prática urbana no âmbito do 13.º Fórum Urbano Mundial, reforça esta abordagem que coloca as pessoas no centro do planeamento e consolida um percurso assente na execução estratégica, na entrega de projectos à escala nacional e na geração de valor sustentável para as comunidades.
Assim, regressamos à questão inicial: pode o crescimento populacional ser uma vantagem competitiva? A resposta é sim. Mas apenas quando existe capacidade para antecipar o crescimento, planear o território e transformar a urbanização numa plataforma de desenvolvimento. Em África, o sucesso do dividendo demográfico dependerá, em grande medida, da forma como as cidades forem construídas, integradas e preparadas para as próximas gerações.






