A Rainha dos Porcos e o ataque ao produtor nacional

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No dia 14 de Setembro de 2025, Angola perdeu uma verdadeira mulher de mérito: Auria Machado, 42 anos, empresária, produtora e símbolo de resistência económica.

Às portas do mês dedicado à celebração da mulher, impõe-se recordar a trajectória da “Rainha dos Porcos” não como figura pitoresca, mas como referência estrutural da suinicultura nacional e da luta pela produção angolana.

Com o epicentro da sua actividade numa fazenda no interior da província do Huambo, Auria Machado demonstrou que é possível produzir carne suína em escala, com qualidade e gestão inteiramente angolana.

Num país ainda excessivamente dependente da importação de alimentos, a sua iniciativa foi mais do que um empreendimento privado: foi um acto de afirmação económica e de soberania.

Ao decidir, com o esposo, assumir também a comercialização da carne , inicialmente controlada por gestores estrangeiros, enfrentou resistências significativas. Grandes superfícies que anteriormente compravam em massa a produção da sua fazenda passaram a alegar falta de qualidade no produto.

A mudança de postura levantou interrogações legítimas: teria a qualidade diminuído ou estaria em causa a disputa pelo controlo da cadeia de valor? No seu livro, Rainha dos Porcos, Auria Machado denuncia aquilo que chama de máfia.

Segundo o seu relato, interesses instalados procuraram inviabilizar o crescimento do seu projecto, seja através do bloqueio comercial, seja pelo fornecimento de ração de qualidade duvidosa. Mais do que um conflito empresarial, estava em causa a quebra de um estereótipo persistente: o de que os angolanos não são capazes de liderar empreendimentos agro-industriais complexos sem tutela estrangeira.

Trata-se de uma narrativa que a empresária recusou essa narrativa. Quando as portas de certos canais de distribuição se fecharam, foi o consumidor final que manteve a empresa viva. As donas de casa e as redes sociais tornaram-se aliadas estratégicas, a aposta na comunicação directa, transparência no processo produtivo e venda sem intermediação permitiram contornar os bloqueios e consolidar a marca junto do público.

Em Luanda criou o restaurante Rei dos Porcos, transformando a carne suína no seu principal cartão-de-visita. O espaço tornou-se referência gastronómica e vitrine de um projecto produtivo nacional. Não se tratava apenas de servir refeições, mas de provar, no prato, que o produto angolano podia competir em qualidade e consistência.

Na página 45 do seu livro, deixa uma mensagem clara aos produtores nacionais: é crucial unirmo-nos para derrubar o estereótipo de que apenas determinadas pessoas sabem produzir porcos. A frase ultrapassa o sector da suinicultura; é um apelo à coesão do empresariado nacional e à defesa da produção interna como pilar da independência económica.

A história de Auria Machado expõe fragilidades estruturais do nosso modelo económico: dependência excessiva de importações, concentração dos canais de distribuição, vulnerabilidade do produtor face a interesses instalados e dificuldades de acesso a insumos de qualidade. Ao mesmo tempo, revela a força da iniciativa privada quando aliada à convicção e à proximidade com o consumidor.

Recordá-la neste momento é reconhecer que a emancipação feminina também se constrói no campo económico. Auria Machado não pediu espaço; conquistou-o. Não se limitou à produção; disputou a cadeia de valor. Não aceitou o papel secundário que o preconceito estrutural muitas vezes reserva ao produtor nacional.

A melhor homenagem que se lhe pode prestar não é apenas a evocação emotiva, mas a continuidade do seu combate: produzir em Angola, por angolanos, com escala, qualidade e orgulho. Cada animal criado na sua fazenda do Huambo representou mais do que proteína animal simbolizou a possibilidade concreta de uma Angola menos dependente e mais confiante nas suas próprias capacidades.

Que o exemplo da Rainha dos Porcos inspire novas gerações a transformar o campo angolano em território de soberania efectiva e dignidade produtiva.

  • Texto publicado na edição de 21 de Fevereiro, do Jornal de Angola

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