A poucos dias da realização da 5.ª edição da Conferência Angolana de Compliance, Nádia Feijó, directora-geral da NF – CONFOJUR, faz uma reflexão sobre a evolução da cultura de compliance em Angola e os principais desafios enfrentados pelas organizações. Para a responsável, o maior entrave continua a ser a resistência interna à mudança, associada à falta de cultura institucional e à escassez de recursos adequados.
O compliance está na agenda de muitas organizações, mas será que já está enraizado na prática? Como se reflecte no quotidiano das instituições?
O compliance deixou de ser apenas uma tendência para se tornar num instrumento essencial de gestão. Trata-se de um conjunto de princípios e práticas que promovem a ética, o respeito pelas normas e a transparência nas actividades empresariais.
Na prática, permite identificar e mitigar riscos, estabelecer controlos internos eficazes e garantir a sustentabilidade das operações. Para além disso, aumenta a credibilidade junto de investidores e parceiros — sobretudo no acesso a mercados internacionais — e previne consequências reputacionais e legais graves.
Empresas com uma cultura de compliance sólida estão melhor preparadas para crescer de forma responsável e conquistar a confiança dos seus stakeholders.
Quais são as políticas indispensáveis que qualquer organização deve implementar para garantir conformidade?
Um programa eficaz de compliance deve começar por um código de conduta claro, que reflita os valores da organização e oriente o comportamento dos seus colaboradores. Deve ainda incluir políticas rigorosas contra o suborno e a corrupção, procedimentos de gestão de riscos, formação contínua, canais de denúncia seguros e comprometimento efectivo da liderança.
O envolvimento dos gestores é fundamental para que o compliance deixe de ser uma exigência técnica e passe a ser uma prática cultural transversal.

Como avalia a adesão dos formandos e participantes dos eventos da NF às boas práticas de compliance?
Temos registado uma evolução muito positiva. Nota-se maior interesse e compromisso por parte dos profissionais, o que nos dá confiança no caminho que estamos a trilhar. Quer nos programas de formação quer nas conferências, temos procurado assegurar que os participantes compreendam os padrões mais exigentes de compliance e saibam aplicá-los nas suas realidades.
Qual é, na sua opinião, o maior obstáculo à implementação do compliance nas organizações?
O maior desafio continua a ser a resistência à mudança, sobretudo em contextos onde a ética e a legalidade ainda não são prioridades consolidadas. A complexidade e evolução constante das normas legais, bem como a limitação de recursos financeiros e humanos, também dificultam a implementação efectiva de programas de compliance.
Superar estes obstáculos exige uma liderança exemplar, investimento em capacitação, modernização dos sistemas e um esforço consciente para transformar a cultura organizacional.
Como é possível garantir que a cultura de compliance não se esgote em documentos e normas formais?
A cultura de compliance exige consistência e presença. As boas práticas devem ser comunicadas de forma clara, monitorizadas e reconhecidas. A liderança tem de estar comprometida e dar o exemplo. Políticas bem escritas não são suficientes; é preciso que os comportamentos no dia-a-dia estejam alinhados com esses princípios.
Canal de denúncias, reconhecimento de condutas éticas, responsabilização efectiva e integração do compliance nos processos de decisão são alguns dos mecanismos que mantêm viva a cultura de integridade.
Como monitorar e avaliar se o compliance está, de facto, a funcionar?
A organização deve estabelecer indicadores-chave de desempenho (KPIs): número de incidentes registados, taxa de resolução, adesão às formações, periodicidade de actualização das políticas, entre outros. Auditorias internas, inquéritos de percepção junto dos colaboradores e análise de padrões de inconformidade são também ferramentas úteis.
Mais importante do que cumprir uma checklist é garantir que o compliance está integrado nas decisões estratégicas e operacionais da organização.
Quais são os planos da NF – CONFOJUR para reforçar a cultura de compliance em Angola?
Continuaremos a apostar em programas de formação, consultoria especializada e eventos temáticos que promovam o conhecimento, a reflexão e a implementação de boas práticas nas empresas angolanas. A nossa missão é contribuir para um ambiente institucional mais ético, mais robusto e mais competitivo, que beneficie a sociedade como um todo.

O contexto regulatório muda constantemente. Como é que a vossa equipa se prepara para responder a esses desafios?
Temos uma abordagem assente na actualização permanente, na formação contínua dos nossos quadros e na observação atenta das melhores práticas internacionais. Isso permite-nos oferecer soluções ajustadas à realidade do mercado e às necessidades específicas dos nossos clientes.
Estamos na véspera da 5.ª edição da Conferência Angolana de Compliance. O que podemos esperar desta edição?
Esta edição representa um marco importante. Teremos a honra de contar com a participação do Professor Doutor Carlos Feijó, um dos juristas mais respeitados do país, bem como de representantes de alto nível do sector financeiro — desde membros dos conselhos de administração de bancos até reguladores.
O tema escolhido — “Compliance Estratégico: Liderança e Inovação” — reflecte o momento que vivemos: é preciso integrar o compliance na visão de futuro das organizações. Estamos a preparar um encontro dinâmico, com partilha de experiências reais e propostas concretas para fortalecer o tecido empresarial angolano.




