As Forças Armadas ucranianas afirmam que limitações inesperadas nos terminais de comunicação por satélite interromperam várias missões militares, afectando ataques e operações de defesa aérea. O incidente agrava as preocupações de Kyiv quanto à dependência de tecnologia norte-americana, numa altura em que as relações com Washington se deterioram e a Rússia intensifica os ataques contra infra-estruturas ucranianas.
Restrições inesperadas afectam drones militares
A Ucrânia acusou a SpaceX, empresa de Elon Musk, de prejudicar operações militares com drones depois de o serviço de internet por satélite Starlink ter começado a impor limitações ao funcionamento de terminais militares em movimento a alta velocidade. A restrição, denunciada por responsáveis ucranianos na quarta-feira, 14 de Outubro, terá provocado falhas de comunicação e a interrupção de várias missões.
Segundo Serhiy Beskrestnov, conselheiro presidencial ucraniano para assuntos tecnológicos militares, as forças do país não foram avisadas previamente sobre a alteração. Numa publicação nas redes sociais, o responsável afirmou que a falta de aviso levou à perturbação de operações militares.
A limitação terá afectado drones utilizados para atingir alvos russos em território ucraniano ocupado e aparelhos interceptores destinados a combater drones inimigos. Estes sistemas dependem de ligações de comunicação para transmitir informações e permitir o controlo remoto durante as missões.
Beskrestnov indicou que a SpaceX estabeleceu um limite de velocidade de aproximadamente 160 quilómetros por hora para o funcionamento dos terminais abrangidos pela restrição. Contudo, uma fonte do Ministério da Defesa ucraniano afirmou que unidades militares reportaram perdas de ligação a velocidades inferiores a metade desse valor, sugerindo que o impacto operacional poderá ser mais amplo do que o limite anunciado.
A SpaceX não respondeu imediatamente ao pedido de comentário feito pela Reuters. Entretanto, responsáveis ucranianos disseram estar em contacto com a empresa, o Governo norte-americano e a NATO para obter esclarecimentos sobre a medida e procurar uma solução.
Starlink tornou-se essencial para as operações ucranianas
Desde o início da invasão russa em grande escala, em Fevereiro de 2022, o Starlink tornou-se uma componente importante das comunicações da Ucrânia. O sistema utiliza uma constelação de satélites em órbita baixa para disponibilizar acesso à internet em locais onde as redes terrestres foram destruídas, estão indisponíveis ou não oferecem cobertura suficiente.
As forças ucranianas recorrem a estes terminais para manter comunicações na linha da frente, coordenar unidades, transmitir dados e apoiar operações com sistemas não tripulados. Em determinados drones, os equipamentos de comunicação por satélite estão integrados nos sistemas de orientação e controlo, permitindo que os aparelhos recebam instruções durante o voo.
A dependência tornou-se particularmente relevante à medida que a Ucrânia expandiu o uso de drones para reconhecimento, ataques de longo alcance e intercepção de aparelhos russos. A tecnologia permite manter ligações em áreas extensas, embora o desempenho dependa das condições técnicas, da disponibilidade do serviço e das limitações impostas ao equipamento.
A restrição agora denunciada evidencia uma vulnerabilidade estratégica: quando uma capacidade militar depende de uma plataforma comercial controlada por uma empresa privada, alterações técnicas ou decisões empresariais podem ter consequências directas no terreno. Essa dependência não significa que todas as operações ucranianas estejam paralisadas, mas demonstra que a disponibilidade dos sistemas de comunicação pode condicionar a execução de determinadas missões.
O Starlink opera em território ucraniano, incluindo áreas sob controlo russo. A amplitude geográfica do serviço torna a gestão do acesso especialmente sensível num conflito em que a mesma tecnologia pode ter aplicações civis e militares, e em que as condições de utilização podem afectar diferentes operações.
Polónia critica Elon Musk
A notícia das restrições provocou uma reacção do ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia, Radosław Sikorski, cujo país paga as subscrições do Starlink utilizadas pela Ucrânia. O responsável questionou publicamente se Musk estaria a utilizar os seus produtos como instrumento de pressão política.
A reacção reflecte a preocupação de países europeus que apoiam Kyiv e que dependem, em parte, de infra-estruturas tecnológicas fornecidas por empresas norte-americanas. A disponibilidade de comunicações por satélite é considerada relevante tanto para as operações militares como para a continuidade dos serviços em áreas afectadas pela guerra.
Musk, aliado político próximo do presidente norte-americano Donald Trump, já esteve envolvido em controvérsias anteriores relacionadas com o uso do Starlink pela Ucrânia. As discussões sobre as condições de acesso ao sistema têm alimentado o debate sobre o papel de empresas privadas na prestação de serviços com importância militar.
Até ao momento, não havia uma explicação pública completa da SpaceX sobre as restrições agora denunciadas. Por isso, não está confirmado se a medida foi motivada por razões técnicas, de segurança, pelas condições de utilização do serviço ou por considerações políticas.
A falta de esclarecimentos aumenta a incerteza para as forças ucranianas, que precisam de saber se as limitações serão temporárias, se abrangem todos os terminais militares ou se poderão ser ajustadas através de contactos com a empresa e as autoridades norte-americanas.





