A Oferta Pública de Venda de 29,75% do capital do Banco de Fomento Angola (BFA), realizada em 2025, não produziu apenas uma captação recorde de cerca de 242 milhões de dólares. Os dados do relatório anual da BODIVA (Bolsa de Dívida e Valores de Angola) revelam que a operação alterou a composição interna do mercado de capitais, transferindo o centro de gravidade da actividade bolsista da dívida pública para o segmento accionista.
Até 2024, o perfil da BODIVA era o de uma bolsa dominada por títulos do Tesouro. As negociações concentravam-se em Obrigações do Tesouro Não Reajustáveis e em Moeda Externa, com as acções a desempenharem um papel residual no volume total. Os 10.328 negócios realizados ao longo de todo o ano de 2024 reflectiam um mercado com liquidez limitada e uma base de investidores predominantemente institucional.
Em 2025, esse padrão inverteu-se. Das 37.156 transacções registadas na BODIVA — um aumento de 260% face ao ano anterior —, 22.385 ocorreram no Mercado de Bolsa de Acções, o equivalente a 60,25% do total. É a primeira vez que o segmento accionista concentra a maioria dos negócios realizados na bolsa angolana.
O momento mais emblemático desta mudança ocorreu na sessão de 5 de Novembro, quando o Mercado de Bolsa de Acções movimentou Kz 22,5 mil milhões em 167 negócios, representando 80,70% do montante total transaccionado nesse dia em todos os mercados da BODIVA. Foi a primeira vez que o volume negociado em acções ultrapassou, numa única sessão, os montantes dos mercados de Títulos do Tesouro e de Operações de Reporte.
A OPV do BFA foi o principal catalisador desta reconfiguração. A operação mobilizou mais de oito mil investidores, com um rácio procura/oferta de 506,37%, segundo dados apresentados pela Kyros SDVM no relatório da BODIVA. O impacto na base de investidores foi imediato: no terceiro trimestre de 2025, período da oferta, foram abertas 7.346 novas contas de registo individualizado na Central de Custódia de Valores Mobiliários de Angola (CEVAMA) — mais do que o total de contas abertas em todo o ano de 2024 (7.622). No acumulado do ano, o número de contas activas cresceu 36,30%, passando de 35.053 para 47.778, com as pessoas singulares a representarem 84,53% do total.
A capitalização bolsista do mercado accionista triplicou, de Kz 1,40 biliões para Kz 4,17 biliões, um aumento de 198%. E os activos sob custódia na CEVAMA atingiram Kz 17,14 biliões, com as emissões privadas — acções, unidades de participação e obrigações corporativas — a crescerem 93,29% face ao final de 2024, para Kz 5,92 biliões. A dívida privada passou a representar 35% do montante total custodiado.
A transformação não se limitou à dimensão quantitativa. O último trimestre de 2025 registou 9.392 transacções num único mês, valor largamente superior à média mensal histórica de cerca de dois mil negócios. No conjunto do ano, a taxa média anual de crescimento do número de negócios verificada desde 2016 situou-se em 53,70%.
Os Fundos de Investimento Mobiliário (FIM) acompanharam esta dinâmica, quintuplicando o seu peso nas negociações da BODIVA de 2,1% para 11,1% entre Janeiro e Novembro de 2025, segundo dados da Comissão do Mercado de Capitais (CMC). O volume sob gestão destes fundos cresceu 67%, de Kz 128 mil milhões para Kz 215 mil milhões, e o número de gestoras com FIM activos passou de três para sete.
O Conselho de Administração da BODIVA enquadrou os resultados como confirmação de “um aprofundamento claro da actividade, com mais emitentes e intermediários financeiros, e um apetite crescente dos investidores”. Luís Gonçalves, presidente da Comissão Executiva do BFA, afirmou que a admissão em bolsa “acelerou o desenvolvimento e a maturidade do mercado de capitais em Angola” e “consolidou a percepção de que o mercado angolano é uma alternativa sólida e atractiva para investimento”.
Menos de um ano após a OPV, o BFA aprovou a distribuição de Kz 9.224,88 por acção — o maior dividendo por acção de sempre na bolsa angolana —, totalizando Kz 138 mil milhões, com um payout de 60% sobre um lucro individual de Kz 230,6 mil milhões em 2025, segundo as actas da Assembleia Geral divulgadas pela CMC.
A questão que se coloca para 2026 é se a transformação desencadeada pela OPV do BFA representa uma mudança estrutural permanente ou um pico associado a um evento extraordinário. A BODIVA anunciou para este ano a implementação de uma contraparte central, a operacionalização da plataforma de gestão do mercado primário de dívida pública e a preparação de uma bolsa de mercadorias — desenvolvimentos que poderão consolidar a nova configuração do mercado. O avanço do programa de privatizações, com a eventual entrada de empresas de sectores ainda ausentes da bolsa, será igualmente determinante para sustentar a liquidez e a diversidade alcançadas em 2025.




