O volume sob gestão dos Fundos de Investimento Mobiliário (FIM) em Angola cresceu mais de 67% entre Janeiro e Novembro de 2025, passando de Kz 128 mil milhões para Kz 215 mil milhões, segundo dados da Comissão do Mercado de Capitais (CMC) citados no relatório anual da BODIVA (Bolsa de Dívida e Valores de Angola).
No mesmo período, o número de FIM activos no mercado aumentou de 20 para 31, e o número de Sociedades Gestoras de Organismos de Investimento Colectivo (SGOIC) com fundos mobiliários em operação passou de três para sete. O peso dos FIM nas negociações da BODIVA quintuplicou, subindo de 2,1% para 11,1% do volume transaccionado.
O crescimento inscreve-se numa trajectória mais longa de expansão da indústria de investimento colectivo angolana. Em Dezembro de 2015, existiam apenas dois Organismos de Investimento Colectivo (OIC) registados na CMC, que geriam cerca de Kz 865,7 milhões. No final de 2025, o universo contava com 60 OIC registados, administrando aproximadamente Kz 1,44 biliões. Nos últimos dez anos, a indústria registou um crescimento anual cumulativo de 5,22% no montante sob gestão e de 40,51% no número de organismos, de acordo com dados apresentados pela Kassai Capital no relatório da BODIVA.
O universo de OIC em Angola integra actualmente fundos especializados em investimento imobiliário, em valores mobiliários e fundos de capital de risco (private equity). Os OIC imobiliários concentram mais de 50% dos activos sob gestão, reflectindo a preferência dos investidores por imóveis enquanto instrumento de preservação e valorização de capital, conforme assinalado pela Hemera Capital Partners.
Apesar da expansão, o volume aplicado em fundos de investimento mobiliário representava, no final de 2025, apenas cerca de 2% do total de depósitos bancários do sistema financeiro angolano, o que aponta para um potencial de crescimento significativo.
A Standard Gestão de Activos, uma das gestoras activas no mercado, apresentou no relatório da BODIVA a rentabilidade líquida anualizada dos seus três fundos abertos: o Standard Tesouraria registou 10,97% (contra um benchmark de 6,32%), o Standard Obrigações atingiu 19,82% (benchmark de 14,96%) e o Standard Valor, lançado em Julho de 2025, alcançou 67,39% (benchmark de 57,09%), com referência a 31 de Janeiro de 2026.
Walter Pacheco, presidente do Conselho de Administração da Kassai Capital, destacou no relatório que os fundos de investimento “permitem maior escala e profundidade na procura de produtos e serviços no mercado de valores mobiliários” e identificou os fundos de capital de risco como veículos com “papel interessante na oferta de produtos” pela sua estratégia de desinvestimento através de ofertas em mercado de bolsa.
O mesmo responsável identificou três áreas que merecem reflexão regulatória para o desenvolvimento da indústria: a simplificação das tipologias de fundos, que considera “excessivamente compartimentalizadas”; a mobilização de recursos em moeda estrangeira pelos OIC, actualmente limitada, apesar de os depósitos em divisa representarem cerca de 40% do total do sistema bancário em 2023; e o enquadramento dos criptoactivos e activos digitais, cuja regulação pela Lei n.º 3/24 introduz, na sua opinião, “indefinições conceptuais que dificultam o desenvolvimento do mercado”.
Rui Oliveira, presidente da Comissão Executiva da BFA Gestão de Activos, enquadrou a evolução no contexto do que designou como “Mercado de Capitais 4.0”, sublinhando que a próxima fronteira do mercado angolano reside no “financiamento estruturado e nos activos privados”. A BFA Gestão de Activos referiu o investimento na FoodCare, através do Fundo Kimbo, como exemplo prático de utilização de notas convertíveis para fornecer capital de crescimento flexível a empresas locais.
Mário Amaral, managing director da Hemera Capital Partners, assinalou que o mercado accionista “continua a apresentar oportunidades de desenvolvimento, com a capitalização bolsista ainda reduzida face ao PIB”, e considerou que a evolução do mercado “dependerá de novos emitentes, mecanismos de liquidez e da qualidade da informação para apoio à tomada de decisão, com mais analistas financeiros, produção de equity research e melhoria do jornalismo financeiro”.
No plano das finanças sustentáveis, o mesmo responsável afirmou que “ESG representa uma oportunidade estrutural”, referindo que a nível global os activos com critérios ambientais, sociais e de governação superam 30 biliões de dólares, e que em Angola “o desafio é evoluir de uma lógica de conformidade para integração estratégica, com métricas e reporte consistentes”.
António Catana, CEO da Standard Gestão de Activos, considerou que 2025 ficará registado como “o ano da aceleração” dos FIM em Angola, e identificou três eixos prioritários para prosseguir o crescimento: literacia financeira, diversificação da oferta e entrega de rentabilidades consistentes. Quanto à entrada de investidores institucionais, afirmou que “seguradoras e fundos de pensões estão a migrar para a gestão activa” e que este movimento “será acelerado pela consistência de resultados dos FIM frente aos produtos tradicionais”.





