A BODIVA (Bolsa de Dívida e Valores de Angola) anunciou para 2026 um conjunto de desenvolvimentos estruturantes para o mercado de capitais angolano, entre os quais a operacionalização da plataforma de gestão do mercado primário de dívida pública, a implementação de uma contraparte central e a criação de condições para o lançamento de uma bolsa de mercadorias.
As prioridades constam da mensagem do Conselho de Administração da BODIVA publicada no relatório anual referente a 2025, que anuncia igualmente planos de alargamento da base de emissões, ajustamento das regras às necessidades do tecido empresarial, implementação de programas de educação financeira e estabelecimento de parcerias estratégicas.
A contraparte central, mecanismo que se interpõe entre compradores e vendedores para garantir o cumprimento das obrigações de ambas as partes, “viabilizará a criação de novos produtos e segmentos que concorram para maior liquidez do mercado”, segundo o Conselho de Administração. A plataforma de gestão do mercado primário de dívida pública, denominada Capizar E Auction, já entrou em funcionamento, constituindo o que a Kyros SDVM classificou como “um passo decisivo” na promoção de “um ambiente mais transparente, competitivo, inclusivo e dinâmico”.
A perspectiva de criação de uma bolsa de mercadorias foi referida por vários intervenientes no relatório. Amadeu Maurício, presidente do Conselho de Administração da Lucrum Trust, enquadrou-a como “o passo lógico” para converter o potencial de recursos naturais de Angola num “vector real de liquidez, cobertura de risco e financiamento robusto da economia nacional”, abrangendo desde minerais críticos a produtos agrícolas de exportação. Sandra Baptista, presidente do Conselho de Administração da Safira, defendeu igualmente a criação desta bolsa como forma de “potenciar as riquezas naturais para atrair investimento externo”.
Índice bolsista reúne consenso alargado
Entre os desenvolvimentos mais debatidos pelos operadores de mercado destaca-se a implementação de um índice bolsista, matéria sobre a qual o relatório da BODIVA regista convergência generalizada entre corretoras, distribuidoras e gestoras de activos.
Kelson Cardoso, presidente da Comissão Executiva da Áurea SDVM, considerou que a criação de um índice “contribui decisivamente para a atracção de investidores institucionais, ao oferecer métricas padronizadas de acompanhamento e benchmarking”, abrindo espaço para o desenvolvimento de “fundos indexados, produtos estruturados e instrumentos derivados”.
Odair Costa, presidente da Comissão Executiva da BFA Capital Markets, afirmou que a implementação “é crucial”, pois o índice actuará como “um termómetro da saúde do mercado, oferecendo transparência e um benchmark claro para investidores”. Na mesma publicação, o responsável referiu que as privatizações da Unitel e do Standard Bank Angola (SBA) são operações cuja concretização em 2026 considera importante para manter a dinâmica de crescimento do mercado.
Mário Mendes, presidente da Comissão Executiva da Fincrest, reconheceu a relevância do índice mas alertou que, “neste momento, o número de empresas cotadas ainda é insuficiente para que o índice seja verdadeiramente informativo e representativo”. Na sua avaliação, “o timing da implementação deve ser cuidadosamente avaliado” e o instrumento “só ganhará plena utilidade com o aumento da base de empresas cotadas e a promoção de maior liquidez e diversidade sectorial”.
Em sentido convergente, Ana Silva, presidente do Conselho de Administração da Inovadora Capital SDVM, sustentou que “a oportunidade não depende exclusivamente do número absoluto de empresas cotadas, mas sobretudo da qualidade, capitalização e liquidez das existentes”, acrescentando que “o índice pode, ele próprio, impulsionar novas admissões, pois gera visibilidade, atrai investidores e reforça o ciclo de crescimento do mercado”.
Mariano Ferreira, presidente da Comissão Executiva da Kyros SDVM, partilhou esta perspectiva ao afirmar que “esperar por um mercado maior para criar o índice seria inverter a lógica”, sublinhando que o instrumento “será um catalisador de maturidade, liquidez e credibilidade para a Bolsa”. Referiu ainda a existência de iniciativas embrionárias, como o índice iYeto, desenvolvido pela Yeto Africa Research.
Solândia Lukeny Pedro Tutaleny, presidente do Conselho de Administração da Resultados SCVM, considerou que “a implementação do índice bolsista revela-se tecnicamente oportuna”, dado que o mercado apresenta “maturidade mínima necessária”, e defendeu critérios rigorosos de construção, incluindo “liquidez mínima por emitente, percentagem adequada de free float, metodologia clara de ponderação e revisões trimestrais da composição”.
Investimento estrangeiro e inovação tecnológica no horizonte
Para além do índice e da bolsa de mercadorias, os operadores convergem na necessidade de flexibilizar o acesso de investidores estrangeiros ao mercado angolano. Luís Teles, presidente da Comissão Executiva do Standard Bank Angola, defendeu que “é necessário continuar a elevar os padrões de transparência e a ampliar a diversidade de instrumentos”, reafirmando o compromisso da instituição com “um mercado de capitais mais profundo, inclusivo e que constitua uma verdadeira alternativa de financiamento”.
João Sionguele, presidente do Conselho de Administração da Lwei Brokers, referiu como condições essenciais a “simplificação de procedimentos de entrada e saída de capitais, previsibilidade regulatória, harmonização fiscal e clareza cambial”, alertando igualmente para a necessidade de que “a adopção tecnológica seja acompanhada por uma arquitectura institucional que evite a concentração excessiva de provedores críticos de serviços”.
Mariano Ferreira, da Kyros, identificou a simplificação da atribuição do Número de Identificação Fiscal (NIF) a investidores estrangeiros como “um dos mais prementes desafios actuais” para atrair esta franja de participantes.
No plano tecnológico, Carlos Lima, presidente do Conselho de Administração da Savings SDUM, enquadrou as transformações em curso como parte de um processo mais amplo de modernização do sistema financeiro angolano, afirmando que “o mercado de capitais deve deixar de ser visto como complementar e passar a assumir-se como um pilar estratégico do financiamento da economia”. Na mesma linha, referiu que “a crescente presença das FinTechs e a sua interacção com as instituições financeiras tradicionais estão a redesenhar o ecossistema financeiro”.
Enquadramento macroeconómico favorável, mas com ressalvas
As perspectivas para 2026 assentam num contexto macroeconómico globalmente mais favorável. As projecções para a economia angolana apontam para um crescimento entre 2% e 4%, impulsionado pela estabilização do sector não petrolífero e por reformas estruturais, segundo o Banco Mundial e o Banco Nacional de Angola (BNA), conforme referido no enquadramento macroeconómico do relatório da BODIVA.
A desaceleração da inflação — de 28% em 2024 para 16% em 2025 — e a maior estabilidade cambial criaram condições mais previsíveis para o financiamento da economia. No entanto, o relatório assinala que o cenário permanece condicionado por riscos externos, nomeadamente a volatilidade dos preços do petróleo, a evolução dos mercados internacionais e tensões geopolíticas.
O Conselho de Administração da BODIVA encerrou a sua mensagem anual sublinhando que a instituição pretende “um mercado cada vez mais acessível, transparente e eficiente, capaz de impulsionar Angola rumo a um futuro sustentável e próspero”.





