Justino Carvalho, participante da MultiChoice Talent Factory, alertou 150 estudantes do IMETRO para lacunas na indústria cinematográfica nacional durante masterclass que questionou foco excessivo em equipamento técnico
O cineasta Justino Carvalho, conhecido artisticamente como Lord Over Makers, defendeu que o cinema angolano sofre de “foco excessivo na imagem e na câmara em detrimento de outras áreas essenciais do sector”, numa masterclass realizada na Universidade Metropolitana de Angola (IMETRO) que reuniu mais de 150 estudantes de cinema, televisão e jornalismo.
A sessão “Um Cinema Sem Câmara”, promovida pela MultiChoice Angola na sexta-feira, partiu de provocação deliberada: questionar a obsessão por equipamento técnico e linguagem visual numa indústria que carece de estruturação em áreas como argumento, produção, distribuição e enquadramento regulamentar.
Carvalho, que integra a edição 2024/2025 da MultiChoice Talent Factory — programa de formação em audiovisual da multinacional sul-africana de televisão por subscrição —, estruturou a intervenção em três módulos: apresentação do processo de candidaturas à MTF, diagnóstico crítico do cinema angolano (desafios, lacunas e oportunidades) e análise de tendências contemporâneas como cinema sintético, cinema colaborativo e linguagem global.
Dependência do audiovisual ameaça sustentabilidade
O cineasta afirmou que “em Angola o cinema ainda depende fortemente do sector audiovisual para a sua sustentabilidade”, numa referência à ausência de economia cinematográfica autónoma baseada em salas comerciais, circuitos de distribuição estruturados e modelos de financiamento específicos para produção de longas-metragens.
A observação expõe fragilidade estrutural: a maioria dos realizadores angolanos financia-se através de produção publicitária, videoclips musicais, documentários institucionais e conteúdos para televisão — actividades do sector audiovisual lato — em vez de depender de receitas de bilheteira, vendas internacionais ou fundos públicos dedicados ao cinema, como acontece em indústrias mais maduras.
Carvalho defendeu a “necessidade de maior colaboração entre profissionais e o fortalecimento da indústria audiovisual no país”, sublinhando a exigência e os desafios do sector e incentivando os estudantes a “investirem na formação académica e na construção gradual de competências”.
A masterclass decorreu em formato interactivo, com o cineasta a partilhar trajectória profissional “marcada pela determinação e pelo interesse contínuo na área do audiovisual até à sua participação no programa MTF” — embora não tenha sido divulgado curriculum detalhado nem filmografia que permita avaliar extensão da sua experiência.
Mesa-redonda discute produção cinematográfica
Paralelamente decorreu mesa-redonda com Prudência Hach, especialista em production design (direcção de arte), e Alexandre Alexandre, director de produção, que partilharam “experiências profissionais e perspectivas sobre os desafios da produção cinematográfica em Angola”, segundo a organização, que não detalhou conteúdos específicos das intervenções.
Paula Machado, representante da MultiChoice Angola, afirmou que a iniciativa resulta de “parceria com o IMETRO e da visão de estimular novas formas de pensar o cinema angolano e africano, promovendo reflexão, criatividade e desenvolvimento de competências”, reforçando “a aposta da empresa no talento jovem e no papel da formação como instrumento para criar oportunidades”.
Cine Zunga leva produções nacionais ao Rocha Pinto
Na sequência da masterclass, a MultiChoice promoveu sessão do projecto Cine Zunga no Campo da Mbiri, bairro Rocha Pinto, com exibição gratuita ao ar livre de três produções angolanas: Teka, Os Segredos da Aldeia e Pânico em Cacuaco.
O Cine Zunga é iniciativa da produtora Geração 80, em parceria com a Administração Municipal da Maianga e a DStv (marca da MultiChoice), que promove exibições de cinema angolano em comunidades sem acesso a salas comerciais. A sexta edição do projecto realizou 106 sessões em nove províncias durante 2025, com meta de 200 sessões em oito províncias para 2026, segundo os promotores.
A estratégia de exibição comunitária contorna ausência de rede de salas de cinema comercialmente viáveis em Angola — problema estrutural que limita rentabilização de produções nacionais e dificulta consolidação de público pagante para filmes locais.





