Primeira carga de cobre e cobalto congolês sai para o mundo através do Corredor do Lobito

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Exportação da empresa estatal EGC via Trafigura testa nova rota que promete reduzir em sete dias o transporte de minerais críticos desde a RDC até portos internacionais

A República Democrática do Congo (RDC) realizou a primeira exportação de cobre e cobalto através do Corredor do Lobito, numa operação que marca a entrada em funcionamento efectivo de uma rota alternativa às tradicionais vias de escoamento de minerais do Cinturão de Cobre congolês e reforça o posicionamento estratégico de Angola no comércio global de matérias-primas críticas.

A carga, adquirida pela empresa estatal congolesa Entreprise Générale du Cobalt (EGC) a produtores artesanais e comercializada pela multinacional Trafigura, seguiu pela Lobito Atlantic Railway (LAR) até ao porto de águas profundas do Lobito, de onde será enviada para clientes nos Estados Unidos. A operação é a primeira de carácter comercial a usar integralmente a infra-estrutura ferroviária que liga Kolwezi, no coração da produção mineira congolesa, ao Atlântico angolano.

Segundo a LAR, o trajecto de aproximadamente 1.750 quilómetros entre Kolwezi e o porto do Lobito representa “a rota ferroviária mais curta entre a região e um porto africano”, permitindo reduzir o tempo de transporte em cerca de sete dias face às alternativas existentes – que tradicionalmente passam por portos da África Austral ou da costa oriental do continente.

Rastreabilidade como argumento comercial

Eric Kalala, administrador executivo da EGC, sublinhou que o acordo “demonstra que é possível assegurar um abastecimento ético, transparente e rastreável de cobre e cobalto provenientes da produção artesanal em grande escala”, num sector marcado por acusações recorrentes de trabalho infantil, informalidade e falta de controlo sobre origens.

A EGC foi criada em 2019 por decreto presidencial congolês com mandato exclusivo para adquirir, processar e comercializar minerais estratégicos extraídos por mineradores artesanais na RDC, incluindo cobalto, coltan e germânio. O executivo da empresa afirmou que a operação reflecte “reformas lideradas pela ARECOMS e pelo Governo da República Democrática do Congo, através do Ministério das Minas, com o apoio da Gécamines e do FOMIN”.

Kalala destacou ainda que “o envio inicial deste carregamento para clientes nos Estados Unidos materializa a parceria estratégica entre os EUA e a RDC”, numa referência ao interesse crescente de Washington em diversificar fontes de abastecimento de minerais críticos para baterias e tecnologias de transição energética, reduzindo dependência da China.

Financiamento de USD 753 milhões sustenta reabilitação

A Lobito Atlantic Railway, detida pela Trafigura, Mota-Engil e Vecturis, opera sob concessão de 30 anos a linha de 1.300 quilómetros entre o Lobito e o Luau, na fronteira com a RDC, e mantém acordo de acesso com a Société Nationale des Chemins de Fer du Congo (SNCC) para operar o troço de 450 quilómetros até Kolwezi.

Em Dezembro de 2024, a LAR garantiu financiamento de USD 753 milhões (cerca de EUR 690 milhões) da International Development Finance Corporation (DFC), agência de financiamento ao desenvolvimento dos Estados Unidos, e do Development Bank of Southern Africa (DBSA), destinado à reabilitação e expansão contínua da infra-estrutura ferroviária – um sinal do apoio ocidental ao projecto como alternativa a rotas controladas por interesses chineses.

Nicholas Fournier, administrador executivo da LAR, afirmou que “a LAR é um activo regional de acesso aberto, que posiciona Angola e a RDC como actores centrais no fornecimento dos minerais essenciais à transição energética, à digitalização e à industrialização”.

Franck Rogozin, director de Metais e Minerais para África da Trafigura, considerou que “esta colaboração com a EGC demonstra a importância de parcerias sólidas entre produtores e operadores comerciais, permitindo reforçar a resiliência das cadeias globais de abastecimento de metais e minerais críticos”.

Corredor do Lobito e geopolítica de minerais

O Corredor do Lobito tornou-se peça central na competição geopolítica pelo acesso a cobre, cobalto e lítio africanos, minerais indispensáveis para baterias eléctricas, painéis solares e electrónica. A RDC detém cerca de 70% das reservas mundiais de cobalto. Tradicionalmente, a produção congolesa era escoada por rotas controladas ou influenciadas por empresas chinesas, que dominam o processamento global de cobalto. O financiamento ocidental ao Corredor do Lobito visa criar rota alternativa sob influência americana e europeia, numa disputa estratégica que redefine alianças comerciais em África.

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