A classe letrada africana de Luanda, nos finais do século 19 e primeiras décadas do século 20, estava longe de constituir um bloco homogéneo.
Segundo o historiadores como David Birmingham, essa elite encontrava-se internamente estratificada, marcada por diferenças de origem social, trajectórias históricas, práticas culturais e expectativas políticas. Duas grandes categorias permitem compreender essa diversidade: os chamados “velhos assimilados” e os “novos assimilados”.
Os velhos assimilados, frequentemente designados como crioulos antigos, eram, sobretudo, católicos negros e mestiços cujas raízes urbanas remontavam, em muitos casos, ao século 17.
Tratava-se de um grupo com forte consciência de linhagem, quase aristocrático, que se percebia como herdeiro legítimo da cidade de Luanda.
As alianças matrimoniais obedeciam a critérios rigorosos de estatuto social, reforçando redes familiares fechadas e duradouras. As suas genealogias podem ser seguidas através de registos de oficiais do exército, professores, funcionários superiores e outros quadros da administração colonial.
Este segmento ocupava posições relevantes no aparelho colonial e mantinha uma relação de proximidade com o poder. Falava português como língua principal da vida social urbana, reservando o quimbundo para a comunicação com empregados domésticos e trabalhadores subalternos. A ligação à massa indígena era, por isso, distante e hierarquizada.
Paralelamente a esta aristocracia urbana, emergia um segundo segmento: os novos assimilados, um grupo não possuía tradições urbanas profundas nem linhagens antigas em Luanda. A sua inserção na cidade resultou sobretudo da expansão do ensino a partir do século 19, que permitiu a jovens oriundos do interior ou de famílias recentemente urbanizadas adquirir alfabetização e acesso a empregos subalternos no sector público e privado.
Os novos assimilados falavam português de forma funcional , suficiente para o trabalho administrativo ou comercial, mas esta não era a sua língua materna. No espaço doméstico, o quimbundo permanecia dominante, e as raízes familiares continuavam fortemente ligadas ao meio rural. Essa dupla pertença, urbana no trabalho, rural na vida familiar, conferia-lhes uma identidade menos aristocratizada e mais instável do que a dos velhos assimilados.
Do ponto de vista institucional, os novos assimilados não partilhavam as redes sociais nem os espaços de sociabilidade da elite católica negra tradicional. Criaram as suas próprias associações, clubes recreativos, grémios profissionais e estruturas de apoio mútuo, frequentemente mais pragmáticas e menos cerimoniais.
Um traço distintivo fundamental deste grupo era a sua relação com a religião. Muitos dos novos assimilados não eram católicos, mas oriundos das escolas das missões protestantes, sobretudo Metodistas. Frequentavam capelas protestantes e absorviam uma ética centrada na disciplina, no mérito individual, no trabalho e na instrução, contrastando com o catolicismo hierárquico e tradicional dos velhos crioulos.
Os clubes e associações dos novos assimilados começaram, gradualmente, a desenvolver aspirações políticas discretas. Tratava-se de um reformismo cauteloso, expresso em debates sobre educação, justiça, condições de trabalho e discriminação racial, cuidadosamente disfarçados como actividades culturais para escapar à vigilância da polícia colonial.
Apesar das diferenças, ambos os grupos partilhavam uma ambiguidade fundamental: acreditavam, em graus distintos, na possibilidade de integração no sistema colonial. Os velhos assimilados procuravam preservar privilégios herdados; os novos assimilados aspiravam à ascensão social individual. Contudo, ambos acabaram por confrontar-se com os limites estruturais da assimilação num regime fundado na desigualdade racial.
A distinção entre velhos e novos assimilados ajuda, assim, a compreender não apenas as fracturas internas da elite nativa urbana, mas também os caminhos diferenciados que conduziram, mais tarde, ao esgotamento do reformismo colonial e à emergência de posições mais críticas e, claramente, anti-coloniais.
- Texto publicado na edição de domingo, 18 de Janeiro, do Jornal de Angola





