Administração norte-americana enfrenta revés diplomático após assinatura de tratado entre RDC e Ruanda, enquanto desmantelamento da USAID deixa milhões sem assistência e Washington intensifica operações militares na Nigéria.
A estratégia da administração Trump para África enfrenta crise de credibilidade após o colapso do acordo de paz entre República Democrática do Congo (RDC) e Ruanda apenas uma semana depois da sua assinatura solene em Washington, revelou o secretário de Estado norte-americano Marco Rubio a 13 de Dezembro. A violação do tratado coincide com escalada militar dos Estados Unidos no continente, encerramento da principal agência de ajuda norte-americana e imposição de tarifas comerciais que analistas descrevem como potencial “sentença de morte” para relações económicas Estados Unidos-África.
O secretário Rubio acusou o Ruanda de violar claramente os Acordos de Washington após grupo rebelde M23, alegadamente apoiado por Kigali, ter capturado cidade de Uvira no leste da RDC, segundo reportagem do portal português Notícias ao Minuto. “As acções do Ruanda no leste da República Democrática do Congo são clara violação dos Acordos de Washington assinados pelo presidente Trump, e os Estados Unidos tomarão as medidas necessárias para preservar esse acordo”, afirmou Rubio na rede social X, citado pelo portal.
O acordo, assinado a 4 de Dezembro na presença de Trump, previa cessar-fogo permanente, desarmamento de forças não-estatais, retorno de refugiados e responsabilização por atrocidades cometidas. Trump tinha descrito o tratado como “oitava guerra” terminada pela sua administração em menos de um ano, afirmando triunfar “onde tantos outros falharam” num conflito que dura três décadas e custou mais de 10 milhões de vidas, reportou o jornal português Público.
Contudo, a violência continuou mesmo durante cerimónia de assinatura. Fontes locais citadas pelo portal brasileiro Alma Preta relataram bombardeamentos na cidade de Kaziba, sob controlo do M23, com “muitas casas bombardeadas e muitos mortos” na manhã do dia da assinatura. Aviões de combate atacaram área após dias de confrontos, enquanto explosões no posto fronteiriço de Bugarama, no Ruanda, levaram polícia a fechar passagem temporariamente.
Activistas e organizações de direitos humanos receberam acordo com cepticismo. “A paz não será presente de Washington ou concessão de Kigali”, afirmou Prosper Dinganga, fundador do colectivo “A Voz do Congo”, ao Alma Preta. Dinganga argumentou que documento repete lógica de pacto idêntico de seis meses antes que não travou violência, acusando presidente ruandês Paul Kagame de usar acordo como “ferramenta táctica, não compromisso irrevogável”.
A Amnistia Internacional reforçou críticas, afirmando que civis no leste da RDC continuam a sofrer graves abusos de direitos humanos. Tigere Chagutah, director regional da organização, disse que meses de discussões e múltiplos acordos não tiveram “impacto tangível” na vida da população, segundo o Alma Preta. Dezenas de milhares de pessoas foram deslocadas apenas em Outubro, com muitos civis a viver agora em florestas por medo.
Analistas apontam interesses económicos norte-americanos como factor central. Trump afirmou que acordo abre portas para exploração de minerais por empresas dos Estados Unidos na RDC e Ruanda, com leste congolês a abrigar reservas essenciais para tecnologias globais como baterias de veículos eléctricos. “Vamos tirar algumas das terras raras. E toda a gente vai fazer muito dinheiro”, declarou Trump, citado pelo Alma Preta.
Encerramento da USAID provoca crise humanitária
O desmantelamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) após seis décadas de operações representa golpe adicional às relações Estados Unidos-África. A agência foi oficialmente encerrada a 2 de Julho de 2025, após 90 dias de congelamento de financiamento iniciado em Janeiro, reportou o canal Euronews.
Trump e Elon Musk, então principal conselheiro através do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), acusaram agência de fraude, desperdício e promoção de agenda esquerdista, com poucas evidências. Durante período de congelamento, mais de 80% dos programas da USAID, entre 5.000 e 6.000, foram cancelados, e 94% dos funcionários, cerca de 10.000 trabalhadores, foram demitidos ou transferidos, segundo reportagem do Instituto Humanitas Unisinos citando publicação do jornal espanhol El Salto.
A USAID tinha alocado total de 12,1 mil milhões de dólares a países da África subsaariana em 2023, com objectivo de melhorar cuidados de saúde, entregar assistência alimentar e promover segurança, reportou o canal Al Jazeera. Estudo publicado pela revista médica The Lancet revelou que agência salvou 92 milhões de vidas entre 2001 e 2021, incluindo 30 milhões de crianças.
Investigadores do Centro para Desenvolvimento Global estimam que cortes da USAID podem contribuir para 500.000 a 1,6 milhões de mortes adicionais anualmente, segundo análise publicada em Dezembro. Organização das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) alertou em Julho que mais de 11 milhões de refugiados perderiam acesso a ajuda, tendo agência recebido apenas 23% do seu orçamento de 10,6 mil milhões de dólares.
O impacto em África foi imediato. Organizações como Acção Contra a Fome relataram que mais de 50 projectos em 20 países da América Latina, África e Ásia foram interrompidos repentinamente, afectando mais de 124.000 pessoas, maioria mulheres e crianças. Em países como Haiti e Etiópia, distribuição de kits de água potável e vacinas foi interrompida, associado a ressurgimento de surtos de sarampo, cólera, malária e diarreia infantil, reportou o Instituto Humanitas Unisinos.
Nigéria aprovou em Fevereiro alocação de financiamento de 200 milhões de dólares para mitigar défice antecipado resultante de cortes em ajuda de saúde dos Estados Unidos. Em 2023, Estados Unidos forneceram mais de 600 milhões de dólares em apoio à saúde à Nigéria, representando mais de 21% do orçamento anual de saúde do país, principalmente para prevenção de malária, erradicação de HIV e distribuição de vacinas, segundo Al Jazeera.
África do Sul, país com maior número absoluto de pessoas a receber tratamento sob Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para Alívio da SIDA (PEPFAR) que foram cancelados, viu governo prometer financiamento adicional para manter provisão de tratamento. Suspensão de ajuda pôs em perigo saúde de órfãos seropositivos residentes no Nyumbani Children’s Home em Nairobi. Entre 1999 e 2023, USAID e PEPFAR contribuíram mais de 16 milhões de dólares para orfanato, permitindo apoiar aproximadamente 50.000 crianças, reportou Al Jazeera.
Trump lançou em substituição Estratégia de Saúde Global America First com 11 mil milhões de dólares ao longo de cinco anos. Rubio assinou 15 acordos com países africanos incluindo Camarões, Essuatíni, Lesoto, Libéria, Moçambique, Nigéria, Ruanda, Uganda, Madagáscar, Serra Leoa, Botsuana, Etiópia, Malawi e Costa do Marfim, segundo site Axios.
Contudo, analistas alertam que nova estratégia tem interesses estratégicos e comerciais dos Estados Unidos em mente. No Zâmbia, embaixador norte-americano ligou acordo de cuidados de saúde pendente a acesso dos Estados Unidos a oportunidades mineiras. Jeremy P. Lewin, subsecretário de Estado para assistência externa, caracterizou sistema anterior como “complexo industrial de ONG” que desviava 70% do dinheiro para intermediários, segundo o Axios.
Estados Unidos reduziram ainda contribuição para assistência humanitária das Nações Unidas para apenas 2 mil milhões de dólares, fracção dos até 17 mil milhões de dólares que forneceram como principal financiador da ONU em anos recentes, reportou Al Jazeera. ONU lançou em Dezembro apelo para 2026 de 23 mil milhões de dólares, metade do montante necessário, após extensão das perdas de financiamento ocidental tornar-se clara.
Operações militares intensificam-se
Paralelamente ao revés diplomático e crise humanitária, Washington intensificou operações militares em África. A 25 de Dezembro, Trump ordenou ataque “poderoso e mortal” contra posições do Estado Islâmico no noroeste da Nigéria, lançando aproximadamente 10 mísseis Tomahawk a partir de navio da Marinha posicionado no Golfo da Guiné, segundo o Pentágono citado pelo portal brasileiro Petronotícias.
O ataque, que visou alvos no estado de Sokoto próximo à fronteira com o Níger, foi justificado por Trump como resposta a assassinatos de cristãos. “Já avisei estes terroristas que, se não cessassem a matança de cristãos, teriam de pagar, e assim aconteceu esta noite”, escreveu Trump na rede Truth Social, segundo o jornal Público. Trump afirmou ter “dizimado” todos os campos visados, tendo deliberadamente adiado operação para dia de Natal como “presente”, revelou ao site Politico citado pela RTP.
Contudo, especialistas questionam narrativa norte-americana. Embora violência contra cristãos nigerianos esteja documentada, têm sido predominantemente muçulmanas as vítimas do Boko Haram e grupos afiliados ao Estado Islâmico, reportou o Público. No estado de Sokoto vivem quatro milhões de pessoas, na sua maioria muçulmanas. Horas antes do ataque aéreo, explosão numa mesquita no estado de Borno matou cinco pessoas e feriu 35.
Quatro mísseis não detonados foram descobertos por residentes locais e polícia nigeriana, segundo investigador Trevor Ball do colectivo jornalístico Bellingcat citado pelo portal AllAfrica. O governo nigeriano descreveu ataques como “de precisão” realizados em “cooperação estruturada de segurança com parceiros internacionais”, segundo comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros nigeriano.
Trump alertou que mais ataques podem ocorrer, reportou o AllAfrica. O portal revelou ainda que administração norte-americana retirou 15 embaixadores de carreira de postos em África no final de Dezembro, deixando 35 das 52 embaixadas dos Estados Unidos no continente sem chefes de missão confirmados pelo Senado.
Tarifas ameaçam comércio continental
A terceira frente de tensão envolve política comercial. Analistas afirmam que tarifas de Trump podem ser “sentença de morte” para Lei de Crescimento e Oportunidades para África (AGOA), pacto comercial conseguido sob administração Clinton há 25 anos que permite acesso livre de impostos de consumidores norte-americanos a certos produtos africanos, segundo análise da Asociación Española de Ciencia Regional citada pelo portal Solidaridad.net.
Com novos direitos aduaneiros, pacto significa fim das preferências comerciais africanas nos próximos meses de 2026, com efeitos negativos em forma de desindustrialização, perdas de emprego e aumento de níveis de pobreza no continente, afirma análise. Vulnerabilidade sectorial dos países africanos é evidente: têxteis e confecção no Lesoto, cacau na Costa do Marfim, baunilha e metais em Madagáscar enfrentam tarifas superiores a 40%.
Trump impôs a 9 de Julho tarifas a oito países, incluindo duas nações africanas, Argélia e Líbia, no mesmo dia em que recebeu líderes de cinco países da África Ocidental em Washington para cimeira de três dias, reportou France 24. O Instituto de Política Económica dos Camarões advertiu que tarifas vão impulsionar inflação, prejudicar exportações, emprego e crescimento do PIB.
Organização Mundial do Comércio reviu em baixa previsões para 2026, alertando que exportações de África e Ásia mudarão de crescimento de 5,3% em 2025 para estagnação em 2026 devido a impacto retardado das tarifas de Trump, reportou jornal espanhol Público. “As perspectivas para o próximo ano são mais sombrias. Estou muito preocupada”, afirmou Ngozi Okonjo-Iweala, directora-geral da OMC, citada pelo jornal.
Administração Trump propôs ainda tributar remessas que famílias nos Estados Unidos enviam a África. Segundo New York Times citado pelo site The Hill, cerca de 10 mil milhões de dólares foram enviados para África em 2024. Proposta prevê taxa de 3,5% sobre dinheiro já tributado a 6% quando foi ganho.
Nick Checker, ex-agente da CIA que passou década na agência de inteligência, assumiu direcção do Gabinete de África do Departamento de Estado no início de Janeiro, reportou o AllAfrica. Ao contrário dos dois antecessores, ambos diplomatas de carreira, Checker está no Departamento de Estado há apenas quatro meses, reflectindo abordagem não convencional de Trump à política externa africana.
Abordagem transaccional domina diplomacia, com Trump a usar rede Truth Social como canal primário de comunicação e a marginalizar diplomatas experientes. Muito da diplomacia de alta visibilidade envolvendo África foi devolvida ao enviado presidencial Massad Boulos e ao próprio Trump, segundo o AllAfrica.
Guerra no Sudão sem solução à vista
Agência das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários alertou Conselho de Segurança que guerra no Sudão, aproximando-se de mil dias, atingiu níveis catastróficos. Civis suportam impacto crescente em meio a violência generalizada, deslocamento e restrições ao acesso humanitário, segundo o AllAfrica.
Guerra por procuração no Sudão, que Trump apresentou como prioridade diplomática, não foi atenuada por esforços até à data. Forças de Apoio Rápido (RSF), milícia paramilitar responsável por onda actual de massacres em batalha contra Forças Armadas Sudanesas pelo controlo da capital regional El Fasher no Darfur do Norte, continua operações apesar de condenação internacional.
Evidências crescentes de tortura e assassinatos em massa de civis a tentar fugir de El Fasher provocaram indignação e acusações de genocídio contra RSF, com senadores norte-americanos a pressionar para designação terrorista do grupo.
Reacção africana aos cortes
Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) estima declínio global na assistência ao desenvolvimento no estrangeiro em 2025 de 9 a 17%, incluindo 16 a 28% para África subsaariana, segundo Centro para Desenvolvimento Global. OCDE prevê que “financiamento de saúde pode cair até 60% do seu pico de 2022”.
Alguns analistas argumentam que encerramento da USAID pode servir de alerta para auto-suficiência africana. Ex-presidente queniano Uhuru Kenyatta tinha alertado em 2015 que “futuro do continente não pode ser deixado às boas graças de interesses externos”, segundo artigo de opinião no Project Syndicate.
Contudo, Oxfam afirma que é difícil medir com precisão impacto humano dos cortes e está pessimista de que lacuna possa ser preenchida apenas por cooperação de organizações privadas. “Não há como substituir de forma rápida e eficaz o que os Estados Unidos dissolveram”, afirmou ONG citada pelo Instituto Humanitas Unisinos.
Texto baseado em reportagens do portal AllAfrica de 14 de Janeiro de 2026, Notícias ao Minuto de 13 de Dezembro de 2025, Alma Preta de 4 e 5 de Dezembro de 2025, jornal Público de 25 de Dezembro de 2025 e 28 de Junho de 2025, Petronotícias de 26 de Dezembro de 2025, RTP de 27 de Dezembro de 2025, France 24 de 15 de Julho de 2025, jornal espanhol Público de 7 de Outubro de 2025, Euronews de 2 de Julho de 2025, Al Jazeera de 13 de Março e 29 de Dezembro de 2025, Axios de 14 de Janeiro de 2026, Instituto Humanitas Unisinos de 13 de Agosto de 2025, Centro para Desenvolvimento Global de Dezembro de 2025, The Hill de 16 de Junho de 2025, e análises da Asociación Española de Ciencia Regional e Instituto de Política Económica dos Camarões.





