Literalmente, o jovem A. Joaquim, 21 anos, foi salvo por uma fintech angolana que opera um serviço inovador no país: remessas internacionais com taxas competitivas e execução quase imediata. E esta é uma história que merece ser contada.
Joaquim, que pediu para não ser identificado com o seu nomecompleto, é estudante de Bioquímica numa prestigiada universidade localizada no interior do estado brasileiro de São Paulo.
O curso é um sonho antigo, nascido ainda na adolescência, quando começou a frequentar a casa de um amigo cujo pai era profissional formado na área. Foi nesse convívio que a curiosidade se transformou em vocação.
Em Angola, esse percurso académico não era possível. Conseguiu inicialmente uma vaga, por via de concurso, numa universidade portuguesa, mas a experiência durou menos de cinco meses. Sem bolsa de estudos e confrontado com custos elevadíssimos de alojamento e subsistência, a desistência acabou por ser inevitável.
De regresso a Angola, surgiu uma nova opção: o Brasil. Custos de vida mais baixos, isenção de propinas e um ambiente académico favorável tornaram viável o recomeço. Contudo, uma nova dificuldade emergiu e passou a ameaçar a continuidade do jovem nas Américas: as remessas financeiras. A família enfrentava enormes obstáculos para enviar dinheiro, listas de espera prolongadas, burocracia excessiva e custos elevados.
Foi então que, através de um colega angolano, A. Joaquim tomou conhecimento da existência da Kwatell, fintech angolana detentora da plataforma Akipaga. Uma solução digital que permite o envio de dinheiro para o exterior, para contas bancárias e carteiras digitais, de forma praticamente instantânea.
À primeira vista, parecia “conversa de burladores”, como admitiu um familiar do estudante. Ainda assim, decidiram avançar e contactar a fintech. O resultado foi surpreendente: transferência imediata, sistema funcional e taxas claramente competitivas.
Uma inovação, segundo players do sector e estudiosos do tema, que poderia atingir outros patamares de impactos sociais se merecesse uma atenção mais assertiva e funcional por parte de processos de regulação do mercado, concretamente sobre a equidade no acesso directo à compra de divisas. E como fazê-lo?
Uma das vias possíveis passaria pela criação de um instrutivo que permita à Kwatell, e a outras fintechs devidamente certificadas, o acesso aos leilões de divisas disponibilizados pelo Banco Nacional de Angola (BNA), através da plataforma Bloomberg. Mais do que isso, torna-se urgente a definição de mecanismos claros e operacionais, por via dos conhecidos instrutivos, que permitam o florescimento da actividade das fintechs neste segmento específico do mercado financeiro.
Naturalmente, não nas mesmas condições impostas às casas de câmbio tradicionais, que foram submetidas a um tecto anual de compra de 500 mil dólares, uma medida que, na prática, significou a morte do negócio para muitas delas.
O caso de A. Joaquim demonstra que, quando a inovação encontra espaço para respirar, impacta vidas reais, resolve problemas concretos e aponta caminhos para um sistema financeiro mais moderno, inclusivo e eficiente.
Angola está atrasada no debate e na implementação de serviços financeiros não bancários, já amplamente disseminados em países africanos como o Gana, o Quénia, a Nigéria ou a Tanzânia. Mesmo Moçambique apresenta hoje um ecossistema mais avançado do que o angolano.
Essas inovações, nos países citados, permitiram ampliar a oferta de crédito às famílias e aos micro e pequenos empreendedores, funcionando como um verdadeiro factor de diversificação e dinamização da actividade económica.
Angola tem mercado, tem uma população jovem com apetência para inovar e capacidade para adaptar localmente experiências de sucesso à sua realidade. Falta, contudo, um ambiente regulatório capaz de motivar, proteger e escalar os empreendedores, através de medidas progressistas e viabilizadoras das iniciativas e do potencial de fintechs como a Kwatell, detentora da plataforma Akipaga.
No fim da linha, quem ganha são pessoas como o estudante Joaquim, mas também empreendedores do comércio, da agricultura e da indústria. Sectores que podem assistir à emergência de novos actores, num contexto em que uma realidade se torna cada vez mais presente: energia eléctrica mais acessível e maior conectividade digital.
- Texto publicado na edição de domingo, 22 de Dezembro, do Jornal de Angola





