Índice de Preços Grossista regista menor variação homóloga desde Setembro de 2023, com produtos importados a contribuírem com 70% para inflação mensal. Pesca lidera aumentos no sector nacional com variação de 35,71% face a período homólogo.
A inflação grossista angolana registou em Novembro uma variação homóloga de 13,66%, representando uma desaceleração de 19,03 pontos percentuais em relação ao mesmo período de 2024, segundo dados do Índice de Preços Grossista (IPG) divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). A variação mensal situou-se em 0,47%, ligeiramente abaixo dos 0,49% registados em Outubro.
Os dados confirmam a trajectória descendente iniciada em Agosto de 2024, quando a inflação grossista homóloga atingiu 36,31%, o ponto mais elevado do ano. A desaceleração actual coloca o IPG de Novembro no nível mais baixo desde Setembro de 2023, sinalizando alívio nas pressões de preços no canal de distribuição grossista.
A variação acumulada entre Janeiro e Novembro de 2025 fixou-se em 11,60%, reflectindo uma moderação consistente das pressões inflacionárias ao longo do ano. Este comportamento do IPG ocorre em paralelo com a desaceleração do Índice de Preços no Consumidor (IPC), que em Novembro atingiu 16,56%, o valor mais baixo dos últimos dois anos.
Produtos importados dominam inflação mensal
Na decomposição da variação mensal de 0,47%, os produtos importados foram responsáveis por 0,33 pontos percentuais, equivalente a 70% da inflação grossista do mês. Os produtos nacionais contribuíram com 0,14 pontos percentuais, representando os restantes 30%.
“A inflação dos produtos importados em Novembro de 2025 foi de 0,47%, com a Secção D (Indústria Transformadora) a contribuir com 0,41 pontos percentuais”, refere o documento do INE. Entre os produtos importados com maiores aumentos destacam-se o feijão castanho (1,59%), milho grão (0,67%) e frango congelado (0,98%).
A variação homóloga dos produtos importados situou-se em 10,97%, significativamente abaixo dos 20,61% registados pelos produtos nacionais no mesmo período. Esta diferença de quase dez pontos percentuais evidencia pressões inflacionárias mais acentuadas na produção doméstica.
Pesca e indústria transformadora pressionam custos nacionais
O sector da pesca registou a maior variação mensal entre os produtos nacionais, com aumento de 2,01% em Novembro face a Outubro. A variação homóloga do sector atingiu 35,71%, reflectindo pressões persistentes nos preços do pescado ao longo do ano.
“Os produtos que tiveram maior variação de preços neste grupo foram os seguintes: sardinha fresca com 2,90%, carapau fresco com 2,39%, pescada fresca com 2,26%, cacusso fresco com 2,22%, cachucho fresco com 1,84%”, detalha o relatório do INE.
A indústria transformadora nacional, com peso de 57,7% no cabaz dos produtos nacionais, registou variação mensal de 1,19% e homóloga de 21,58%. O sector agrícola apresentou comportamento distinto, com recuo mensal de 0,64%, mas manutenção de pressão homóloga de 17,68%.
Na indústria transformadora nacional, gasosas contribuíram com 0,32 pontos percentuais para a variação mensal, seguidas de cerveja (0,17 pontos percentuais), farinha de trigo e carne de vaca (0,02 pontos percentuais cada).
Alimentos mantêm pressão em ambos os canais
A classe de produtos alimentares continua a exercer pressão significativa tanto no canal nacional como importado. No segmento nacional, carne seca registou variação mensal de 3,25%, miudezas 2,69%, e óleo de soja 2,57%. No segmento importado, para além do feijão castanho e frango congelado, destacam-se ervilhas em lata (1,39%) e azeite de oliveira (1,06%).
A variação acumulada dos produtos nacionais em Novembro atingiu 17,47%, enquanto os importados registaram 9,29%. Esta divergência sugere que as pressões inflacionárias na origem doméstica não foram totalmente absorvidas pela estabilização cambial observada ao longo do ano.
O Banco Nacional de Angola (BNA) mantém a taxa de câmbio relativamente estável desde Dezembro de 2024, quando fixou o dólar a 912,00 kwanzas. Esta estabilização cambial tem contribuído para a desaceleração da inflação, tanto ao nível grossista como no consumidor final.
Perspectivas apontam para convergência com meta do BNA
O governador do BNA, Manuel Tiago Dias, projectou em Janeiro uma taxa de inflação ao consumidor de 17,5% no final de 2025, com projecções preliminares de 13,5% para 2026. Em Novembro, o BNA reduziu a taxa de juro de referência de 19,0% para 18,5%, “em resposta a indicadores macroeconómicos favoráveis”, incluindo a “desaceleração consistente da inflação”.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê inflação média de 20,1% em 2025, enquanto o Banco Mundial projecta 25% no mesmo período, com ambas as instituições a anteciparem moderação mais acentuada em 2026.
A trajectória descendente do IPG reforça as expectativas de convergência gradual para a meta de inflação de um dígito a médio prazo, embora o BNA reconheça que “a partir de Junho de 2025 a situação vai-se tornar mais desafiante”, segundo declarações anteriores de Tiago Dias.
O INE informou que, a partir de Janeiro de 2026, passará a apresentar os resultados do IPG “de acordo com uma nova estrutura de ponderadores e do ano base (Dezembro de 2025)”, o que permitirá melhor reflectir as mudanças estruturais no padrão de consumo e produção da economia angolana.
IPG vs IPC e transmissão de preços
O que é o IPG
O Índice de Preços Grossista mede a evolução de preços ao nível da distribuição por grosso, captando pressões inflacionárias antes de chegarem ao consumidor final. Serve como indicador antecedente da inflação ao consumidor.
Comparação com IPC
Em Novembro, o IPC registou variação homóloga de 16,56%, acima dos 13,66% do IPG. Esta inversão (o IPC normalmente acompanha ou fica abaixo do IPG) sugere que margens de comercialização no retalho permanecem elevadas, possivelmente devido a custos de operação ou poder de mercado limitado.
Decomposição por origem
Produtos nacionais representam 29,0% do cabaz do IPG e registaram variação homóloga de 20,61%, enquanto produtos importados (71,0% do cabaz) apresentaram 10,97%. Esta assimetria reflecte desafios estruturais na produtividade doméstica e dependência de importações.
Sectores mais sensíveis
Pesca (peso de 4,6% no cabaz nacional): variação homóloga de 35,71%
Indústria transformadora nacional (57,7%): variação homóloga de 21,58%
Agricultura nacional (37,7%): variação homóloga de 17,68%





