Agentes bancários operam sem cobertura contra furtos, diz Ernesto Manuel, consultor especializado em agentes bancários

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Modelo de negócio assenta em capital próprio dos empreendedores, que assumem riscos de segurança e logística sem garantias dos bancos

Os agentes bancários angolanos trabalham com capital próprio e não beneficiam de qualquer cobertura bancária em caso de furto ou assalto, revelando uma vulnerabilidade estrutural num modelo de negócio que movimentou mais de AOA 250 mil milhões apenas através da rede do Banco BAI em 2024.

“O agente bancário trabalha com capital próprio e então o banco em momento nenhum salvaguarda qualquer eventualidade que venha a acontecer em termos de furto”, afirmou Ernesto Manuel, CEO do Grupo Olho Singelo e consultor especializado em agentes bancários, em entrevista à revista Outside.

A declaração expõe uma realidade pouco conhecida do público: ao contrário dos balcões tradicionais, onde o banco assume responsabilidade integral sobre valores em caixa e sistemas de segurança robustos, os agentes operam como empreendedores independentes que suportam sozinhos os riscos inerentes à manipulação de dinheiro.

Este modelo apresenta desafios particularmente agudos em zonas recônditas. Ernesto Manuel descreveu o caso de agentes no Kwanza Norte, nos municípios do Camame e interior, onde a necessidade de reforçar capital implica percursos longos em estradas degradadas transportando valores elevados sem qualquer protecção institucional.

“Nas zonas mais recônditas, a outra dificuldade é quando ele precisa de reforço na sua conta bancária do agente bancário. Ele tem que às vezes deslocar longos quilómetros de estradas, e com o pior: talvez a estrada não estar em condições, com valores algumas vezes altos para fazer depósito. E essa deslocação de valor de um ponto para outro, o banco não te dá a cobertura”, explicou o empresário.

O relato evidencia uma contradição no modelo: enquanto os agentes bancários são apresentados como solução para levar serviços financeiros a populações remotas, a viabilidade operacional em muitas dessas zonas esbarra em limitações de segurança e logística que recaem exclusivamente sobre pequenos empreendedores.

A questão da segurança assume contornos ainda mais complexos pela natureza do negócio. “Só o facto de as pessoas saberem que o teu negócio é lidar com dinheiro, levantamento, depósito, eles conotam aquela pessoa como alguém que tem ali uma oportunidade”, alertou Ernesto Manuel, referindo-se ao risco de que agentes se tornem alvos preferenciais de criminalidade.

Para além dos riscos de segurança, os agentes enfrentam obstáculos infraestruturais que comprometem a operação. Durante visitas ao interior do Kwanza Norte, o empresário identificou “áreas que não têm cobertura de rede. E para tu acederes ao sistema bancário, tens que estar ligado à rede, tens que ter internet. Logo, se não tiveres essa infraestrutura naquela região, não tens como actuar como agente bancário”.

A questão da conectividade representa uma barreira tecnológica que limita geograficamente a expansão do modelo precisamente nas zonas onde seria mais necessário — municípios e comunas sem agências bancárias ou caixas automáticos.

Ernesto Manuel sublinhou ainda a necessidade de os agentes reunirem condições físicas mínimas para transmitir credibilidade. “O agente bancário é um banco em miniatura. Então logo você vai reunir as condições básicas necessárias para que as pessoas ao chegarem ao seu espaço sintam-se confortáveis, que estão a deixar o dinheiro num sítio seguro”, afirmou.

Contudo, reconheceu que “muitas vezes esse pequeno empreendedor não tem capacidade financeira para ter um espaço apetrechado ao ponto de oferecer credibilidade da parte do cliente”, criando um círculo vicioso onde a falta de capital inicial limita a capacidade de atrair clientes e, consequentemente, gerar as receitas necessárias para melhorar as instalações.

A ausência de digitalização completa agrava as dificuldades operacionais. “A digitalização da banca ainda para muitos não chegou até o agente bancário. Então, são aqueles processos para abertura de conta. Alguns ainda têm que assinar documentos, depois levar esses processos todos para um balcão onde vai estar afiliado a fim de ser inserido no sistema”, descreveu o empresário.

Este cenário burocrático contrasta com o discurso de desburocratização frequentemente associado ao modelo de agente bancário e sugere que a experiência do cliente varia significativamente conforme o nível de investimento tecnológico de cada instituição bancária.

O Banco BAI destaca-se neste aspecto. “O BAI fez um investimento muito grande na tecnologia. Hoje já faz abertura 100% digital”, afirmou Ernesto Manuel, indicando que a liderança do banco no segmento está associada não apenas ao pioneirismo (11 anos de operação) mas também à aposta em soluções tecnológicas que simplificam processos.

A rede de agentes bancários cresceu 641% em 2024, passando de 998 para 7.397 pontos, segundo a Deloitte. Contudo, permanece a questão: quantos destes agentes operam em condições sustentáveis, com capital adequado, segurança razoável e infraestrutura tecnológica funcional? A resposta determinará se esta expansão quantitativa se traduz em inclusão financeira efectiva ou se replica vulnerabilidades que poderão comprometer a viabilidade do modelo a médio prazo.


Desafios Operacionais dos Agentes Bancários

Segurança:

  • Capital próprio em risco
  • Sem cobertura bancária contra furtos
  • Alvo potencial de criminalidade

Logística:

  • Deslocações longas para reforçar capital
  • Estradas degradadas com valores elevados
  • Custos de transporte assumidos pelo agente

Infraestrutura:

  • Zonas sem cobertura de rede móvel
  • Falta de electricidade estável
  • Espaços físicos inadequados por limitações financeiras

Tecnologia:

  • Processos não digitalizados em muitos bancos
  • Documentação física para abertura de contas
  • Dependência de deslocação a balcões para processamento
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