União Europeia mobilizou €120 mil milhões para África mas questões sobre desembolso efectivo e distribuição geográfica persistem

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União Europeia cumpre 80% da meta de investimento antes do prazo de 2027, mas eficácia na execução e equidade na distribuição entre países africanos permanecem por esclarecer. Presidente da Comissão Europeia reafirma compromisso mas empresários angolanos reportam dificuldades no acesso a financiamento

A Global Gateway, iniciativa de investimento da União Europeia em África, já mobilizou €120 mil milhões dos €150 mil milhões prometidos até 2027, cumprindo 80% da meta antes do prazo, anunciou Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia, no Fórum Empresarial UE-África realizado em Luanda esta segunda-feira.

“Comprometemo-nos a investir 150 mil milhões de euros em África até 2027 e desde então mobilizámos investimentos de mais de 120 mil milhões de euros. Estamos no bom caminho para atingir os nossos objectivos”, afirmou von der Leyen perante líderes empresariais e políticos de ambos os continentes reunidos na capital angolana.

A Global Gateway, lançada em 2021, visa financiar projectos transformadores em cinco áreas críticas: infraestruturas digitais, clima e energia, transportes, saúde e educação, posicionando-se como resposta europeia à crescente influência da China em África e como alternativa a iniciativas como a Belt and Road Initiative chinesa.

Europa representa um terço do comércio africano

Von der Leyen sublinhou que a União Europeia é o maior parceiro comercial de África, representando um terço do comércio total do continente, e o maior investidor, com €240 mil milhões investidos apenas em 2023.

“Agora é o momento de investir em África e de fazer parceria com África. Este continente tem tudo o que é necessário para gerar prosperidade internamente e moldar a economia global de amanhã”, declarou a presidente da Comissão, destacando que África detém 60% dos melhores recursos solares mundiais e 30% das reservas minerais globais — recursos essenciais para a transição energética europeia.

Contudo, questões sobre a eficácia do desembolso dos €120 mil milhões mobilizados e a distribuição geográfica equitativa entre os 54 países africanos permanecem por esclarecer, com analistas alertando que “mobilizado” não equivale necessariamente a “desembolsado” ou “executado no terreno”.

Empresários angolanos reportam barreiras no acesso

Apesar das promessas de investimento massivo, empresários angolanos presentes no fórum denunciaram dificuldades persistentes no acesso a financiamento, com bancos comerciais a exigirem garantias que a maioria das pequenas e médias empresas não consegue fornecer.

“Os bancos deviam ter linhas disponíveis para permitir acessos mais fáceis a estes financiamentos que dizem existir”, afirmou um empresário angolano (que pediu anonimato), acrescentando que “sabemos que os bancos querem garantias, mas nós temos garantias reais também para dar. Precisamos é que os bancos nos abram as portas para criar efectivamente desenvolvimento. Sem dinheiro não há desenvolvimento.”

Vicente Soares, Presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Angola, confirmou o diagnóstico: “O investimento tem muito a ver com o défice do acesso às finanças. Os dinheiros existem, o problema reside nas condições que são requeridas para o acesso a estas finanças. O empresariado africano é nascente, não tem condições de dar as garantias reais que são muito solicitadas pelos investidores.”

Cinco áreas prioritárias de investimento

A Global Gateway concentra-se em cinco sectores considerados críticos para o desenvolvimento africano:

1. Infraestruturas digitais
Von der Leyen reconheceu que apenas 5% dos africanos têm acesso a internet de alta velocidade — uma “fractura digital” que a UE pretende colmatar através da expansão de cabos submarinos de dados para África Oriental e Ocidental, incluindo o cabo Medusa que liga Europa e Norte de África.

2. Clima e energia
Aproveitamento dos vastos recursos solares africanos (60% dos melhores recursos mundiais) para gerar energia limpa e apoiar a transição energética europeia, reduzindo dependência de combustíveis fósseis.

3. Transportes
Investimento em portos, ferrovias e estradas para facilitar comércio intra-africano e conectar África aos mercados globais, com destaque para corredores logísticos como o Corredor do Lobito (Angola-RDC-Zâmbia).

4. Saúde
Reforço de sistemas de saúde após lições da pandemia COVID-19, incluindo produção local de vacinas e medicamentos.

5. Educação e investigação
Formação de capital humano qualificado, com foco em competências digitais e tecnológicas essenciais para economias do século XXI.

Novo hub de investimento para facilitar acesso

A Comissão Europeia anunciou em Outubro o lançamento do Global Gateway Investment Hub, uma plataforma digital que permite a empresas de ambos os continentes submeterem propostas de projectos, mobilizarem apoio e envolverem-se directamente na implementação.

“Esta plataforma oferece às empresas a oportunidade de apresentar as suas próprias ideias de projectos. É um passo importante e responde a um pedido que muitos de vocês fizeram: envolvam-nos desde o início. E nós ouvimos”, afirmou von der Leyen, reconhecendo críticas anteriores de que processos de investimento eram demasiado centralizados e opacos.

A iniciativa visa reduzir intermediação burocrática e aproximar investidores privados de oportunidades concretas, num reconhecimento implícito de que investimento público sozinho é insuficiente para colmatar défices africanos.

Questões sobre distribuição geográfica

Analistas independentes alertam que investimentos europeus em África tendem a concentrar-se em poucos países — particularmente Norte de África (Marrocos, Egipto, Tunísia) e África do Sul — deixando a maioria da África Subsariana subfinanciada.

Dados sobre quanto dos €120 mil milhões chegou especificamente a Angola não foram divulgados no fórum, reflectindo opacidade persistente sobre distribuição geográfica e sectorial dos investimentos mobilizados.

José de Lima Massano, Ministro de Estado para a Coordenação Económica de Angola, sublinhou que “a África é hoje um continente em transformação real, mas apesar dos avanços, o continente continua a enfrentar um défice significativo no domínio das infraestruturas [que] permanece entre os principais entraves ao crescimento económico.”

O Banco Africano de Desenvolvimento estima que África precisa de USD 130-170 mil milhões anuais em investimento em infraestruturas, mas actualmente recebe apenas USD 70-90 mil milhões, deixando um gap de USD 60-100 mil milhões/ano — muito superior aos €150 mil milhões (USD ~165 mil milhões) prometidos pela Global Gateway para todo o período até 2027.

Contexto geopolítico: resposta europeia à China

A Global Gateway surge num contexto de crescente competição geopolítica pela influência em África, com a China a dominar investimentos em infraestrutura no continente há duas décadas através da Belt and Road Initiative.

A UE posiciona a Global Gateway como alternativa baseada em “investimentos que constroem valor localmente em vez de extraí-lo, que fortalecem capacidade industrial em vez de criar dependência de importações”, segundo von der Leyen — crítica implícita ao modelo chinês frequentemente acusado de gerar “armadilhas de dívida”.

O fórum reuniu mais de 500 participantes de 47 países africanos e 27 Estados-membros da UE, incluindo chefes de Estado, ministros, CEOs de multinacionais e representantes de instituições financeiras multilaterais.

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