Corredor do Lobito pode movimentar 20 milhões de toneladas/ano mas execução depende de investimento massivo em ferrovia

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Megaprojecto conectando Angola, RDC e Zâmbia posiciona país como hub logístico regional e porta atlântica para minerais críticos, mas infraestrutura terrestre permanece deficiente. Africa Global Logistics opera concessão do porto em corredor que atrai interesse geopolítico de EUA e Europa.

O Corredor do Lobito, eixo logístico que conecta Angola, República Democrática do Congo e Zâmbia, tem potencial para movimentar mais de 20 milhões de toneladas de carga anualmente e transformar a dinâmica comercial da região, posicionando Angola como porta atlântica para exportação de minerais críticos do interior africano, revelou José de Lima Massano, Ministro de Estado para a Coordenação Económica, no Fórum Empresarial UE-África realizado em Luanda.

“O corredor do Lobito [é] um eixo regional, conectando Zâmbia, República Democrática do Congo e Angola, com potencial para movimentar mais de 20 milhões de toneladas a cada ano, transformar a dinâmica comercial continental entre o próprio Atlântico e o interior e criar novos corredores de desenvolvimento económico”, afirmou Massano perante líderes empresariais europeus e africanos.

O projecto — que inclui o Porto do Lobito (província de Benguela), o Caminho de Ferro de Benguela (CFB) e ligações rodoviárias e ferroviárias para RDC e Zâmbia — atrai crescente interesse geopolítico de Estados Unidos e Europa como alternativa à influência chinesa sobre cadeias de abastecimento de minerais críticos (cobalto, cobre, lítio) essenciais para transição energética.

Porto do Lobito: “Porta aberta ao mundo”

Celso Rodrigues Lemos Rosas, Presidente do Conselho de Administração do Porto do Lobito, presente no fórum, sublinhou que a infraestrutura está pronta para captar fluxos comerciais crescentes.

“Estamos cá para mostrar realmente que o nosso porto é um porto aberto ao mundo, um porto do mundo para o mundo, que é a principal porta de entrada e de saída do corredor do Lobito. O corredor já é um corredor económico e social, tem funcionamento com enormes perspectivas de novos negócios”, afirmou Rosas.

O porto, operado pela Africa Global Logistics (empresa francesa presente em 47 países africanos), dispõe de capacidade instalada para movimentar volumes significativos mas actualmente opera muito abaixo do potencial de 20 milhões toneladas/ano devido a gargalos na infraestrutura terrestre que liga o litoral ao interior.

Caminho de Ferro de Benguela: reabilitado mas subaproveitado

O Caminho de Ferro de Benguela (CFB), coluna vertebral do corredor, foi reabilitado pela China entre 2011-2015 após décadas de abandono durante a guerra civil angolana (1975-2002), mas continua operando abaixo da capacidade.

A linha férrea de 1.344 km liga o Porto do Lobito à fronteira com a RDC (cidade de Luau), onde teoricamente conecta com redes ferroviárias congolesas e zambianas que dão acesso ao Copperbelt — cinturão de cobre e cobalto que se estende entre sul da RDC e norte da Zâmbia, uma das regiões minerais mais ricas do mundo.

Contudo, analistas alertam que ligações transfronteiriças permanecem deficientes: — Infrae strutura ferroviária dentro da RDC está degradada — Facilitação aduaneira nas fronteiras é lenta e burocrática — Manutenção do CFB é irregular, afectando fiabilidade

“Tem tantas oportunidades mas que precisam uma conjunção entre as autoridades públicas, os DFIs [instituições financeiras de desenvolvimento], as empresas que propõem financiamentos internacionais europeus neste caso, para acelerar o desenvolvimento e a diversificação da economia angolana”, afirmou São Luvan, CEO de Logística da Africa Global Logistics, operador do Porto do Lobito.

20 milhões toneladas: ambicioso mas possível

A meta de 20 milhões de toneladas anuais colocaria o Lobito entre os cinco maiores portos da África Subsariana, comparável a: — Dar es Salaam (Tanzânia): ~18 milhões toneladas/ano — Maputo (Moçambique): ~20-25 milhões toneladas/ano — Durban (África do Sul): ~75 milhões toneladas/ano (maior da região)

Actualmente, o Lobito movimenta estimados 2-5 milhões toneladas/ano — ou seja, apenas 10-25% do potencial — reflectindo subutilização crónica da infraestrutura.

Tipos de carga previstos: — Minerais (cobre, cobalto, lítio) da RDC e Zâmbia para exportação — Contentores (bens de consumo) importados para distribuição no interior — Combustíveis (gasóleo, gasolina) para mercados landlocked (RDC, Zâmbia) — Produtos agrícolas (milho, soja, café) para exportação

Competição com outros corredores

O Corredor do Lobito compete com rotas alternativas estabelecidas:

Corredor Dar es Salaam (Tanzânia):
Mais estabelecido, serve Zâmbia, RDC (Catanga), Uganda, Ruanda, Burundi. Vantagem: Infraestrutura mais madura. Desvantagem: Congestionamento crónico.

Corredor Beira (Moçambique):
Liga Zimbabué, Zâmbia, Malawi ao Oceano Índico. Vantagem: Proximidade geográfica. Desvantagem: Ciclones frequentes danificam infraestrutura.

Corredor Norte-Sul (SADC):
Liga África do Sul (Durban) ao Copperbelt via Zimbabué, Botswana, Zâmbia. Vantagem: Infraestrutura sul-africana de classe mundial. Desvantagem: Distância maior.

Vantagem competitiva do Lobito:
Acesso ao Oceano Atlântico — mais próximo de Europa e Américas que alternativas no Índico, reduzindo tempo e custo de transporte marítimo para mercados ocidentais.

Interesse geopolítico: EUA e Europa vs China

O Corredor do Lobito tornou-se prioridade geopolítica para Estados Unidos e Europa, que vêem a infraestrutura como alternativa ao domínio chinês sobre cadeias de abastecimento de minerais críticos.

Setembro 2023: EUA, UE, Angola, RDC e Zâmbia assinaram memorando para financiar reabilitação e expansão do corredor, com compromissos preliminares de USD 1-2 mil milhões de instituições como Banco Mundial, BEI (Banco Europeu de Investimento) e EXIM Bank dos EUA.

Motivação: Cobalto e lítio da RDC/Zâmbia são essenciais para baterias de veículos eléctricos — Europa e EUA querem diversificar fornecimento, reduzindo dependência da China (que controla ~70% do processamento global de cobalto).

China, contudo, permanece presente: Construiu o CFB (2011-2015), opera minas no Copperbelt, financia infraestrutura na RDC. Competição sino-ocidental pelo corredor tende a intensificar-se.

Investimento necessário: milhares de milhões

Realizar potencial de 20 milhões toneladas/ano exige investimento estimado em USD 3-5 mil milhões (estimativas de analistas, não oficiais) em:

Modernização CFB: Electrificação, duplicação de vias, aquisição de locomotivas/vagões
Ligações transfronteiriças: Reabilitação de ferrovias na RDC (troços Dilolo-Kolwezi-Lubumbashi)
Facilitação comercial: Postos fronteiriços modernos, sistemas digitais de desalfandegamento
Porto do Lobito: Expansão de terminais, dragagem para receber navios maiores
Estradas de acesso: Ligações rodoviárias complementares ao CFB

Financiamento virá de combinação de: — Instituições multilaterais (Banco Mundial, AfDB, BEI) — Governos (EUA via EXIM Bank, UE via Global Gateway) — Sector privado (operadores logísticos, empresas mineiras)

Desafios de execução

Especialistas alertam para obstáculos que podem atrasar concretização:

1. Coordenação entre três países
Corredor atravessa Angola, RDC, Zâmbia — requer alinhamento político, acordos tarifários, standards técnicos harmonizados. Historicamente difícil.

2. Instabilidade na RDC
Conflitos no leste do país (Kivu, Ituri) e fragilidade institucional criam risco de segurança para investimentos.

3. Capacidade de absorção
Países envolvidos têm capacidade técnica/institucional limitada para gerir projectos complexos de milhares de milhões de dólares.

4. Sustentabilidade financeira
Tarifas ferroviárias/portuárias precisam ser competitivas para atrair carga — se demasiado altas, exportadores usam rotas alternativas.

Visão 2030: corredor integrado

A visão de longo prazo prevê que o Corredor do Lobito evolua de simples rota de transporte para corredor de desenvolvimento económico integrado, com: — Zonas industriais ao longo da ferrovia (processamento de minerais, manufacturas) — Agro-indústria (aproveitamento de terras agrícolas no planalto angolano) — Cidades secundárias revitalizadas (Huambo, Kuito, Luena) — Empregos (directos e indirectos) para centenas de milhares

“Saudamos vivamente iniciativas como a Global Gateway por assumirem firmes a mobilização de recursos para o investimento em infraestruturas que criam oportunidades, congregam investidores, ampliam mercados e consolidam a integração económica”, concluiu José de Lima Massano.

AFRICA GLOBAL LOGISTICS: Operador francês presente em 47 países africanos

A Africa Global Logistics (AGL), operadora do Porto do Lobito, é líder continental em serviços logísticos e portuários, presente em 47 países africanos com mais de 23.000 colaboradores.

História:

Fundada como Bolloré Africa Logistics (grupo francês Bolloré)

2022: Vendida ao grupo MSC (Mediterranean Shipping Company, suíço-italiano)

Rebrandizada como Africa Global Logistics

Operações em Angola:

Concessão Porto do Lobito (principal activo)

Serviços logísticos à indústria petróleo/gás em Luanda

Presença em Cabinda

CEO São Luvan declarou no fórum que "investir em África não é tão complicado" para empresas com "presença há muito tempo" — o grupo opera em alguns países há mais de 60 anos.

"Já estamos acostumados a lidar com as dificuldades (...) Tem tantas oportunidades e tem tanta opção de reduzir o risco quando um investidor estrangeiro quer ter presença no continente", afirmou.

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