Estudo KPMG revela que mais de metade dos líderes empresariais enfrenta “fuga de cérebros demográfica” com saída massiva de pessoal experiente. Paradoxo num país jovem expõe falhas do sistema educativo. Resposta passa por reconversão interna: 80% transferem colaboradores para funções capacitadas por IA.
Mais de metade (53%) dos CEOs de empresas líderes em Angola manifesta preocupação com o número de trabalhadores qualificados que se reformam sem que existam profissionais preparados para os substituir, revela a primeira edição angolana do KPMG CEO Outlook 2025, divulgada esta segunda-feira.
A proporção — mais que duplica a média global de 24% — expõe um paradoxo demográfico crítico: num país com população predominantemente jovem (idade mediana de 16 anos, com 60% abaixo dos 25 anos), os líderes empresariais enfrentam uma “fuga de cérebros demográfica” pela saída de trabalhadores experientes formados nas décadas de 70, 80 e 90, sem que o sistema educativo tenha produzido substitutos qualificados.
O estudo indica que 60% dos líderes identificam as mudanças no mercado de trabalho e o envelhecimento da força de trabalho como tendo impacto moderado a elevado no recrutamento, retenção e cultura organizacional (versus 88% globalmente), tornando a gestão de um local de trabalho multigeracional um novo ponto estratégico na agenda dos Conselhos de Administração.
Gap geracional entre experiência e qualificação técnica
A preocupação dos CEOs não se prende com o envelhecimento da população geral — que permanece jovem — mas com a saída iminente de quadros especializados: engenheiros petrolíferos, gestores seniores com décadas de experiência, técnicos em áreas como manutenção industrial, logística e finanças, formados antes ou logo após a independência.
“Os líderes empresariais estão a transformar rapidamente a força de trabalho, requalificando, contratando e redesenhando funções para incorporar a IA”, contextualiza o documento da KPMG, sublinhando que a resposta à crise de talento passa por reconversão interna acelerada e adopção tecnológica.
A gestão do gap geracional tornou-se particularmente complexa num contexto onde a “geração perdida” — nascidos entre 1980 e 2000, durante a guerra civil — teve acesso limitado ou fragmentado a educação de qualidade, enquanto os jovens actuais enfrentam um sistema educativo desactualizado que não responde às necessidades da economia digital.
80% transferem colaboradores para funções capacitadas por IA
Como resposta estratégica aos desafios de talento, 80% das empresas líderes angolanas estão a transferir colaboradores de funções tradicionais para funções capacitadas por Inteligência Artificial — proporção que coloca Angola na vanguarda global da reconversão laboral impulsionada por tecnologia.
A estratégia de requalificação intensiva é complementada por outras acções: 67% dos CEOs focam-se em reter e requalificar talentos com elevado potencial, enquanto 53% contratam activamente novos talentos com competências em IA e tecnologia. Apenas 13% planeiam redução da força de trabalho em determinadas áreas.
“A preparação e a qualificação da força de trabalho relativamente à IA terão impacto na prosperidade das organizações nos próximos três anos”, afirmam 73% dos líderes (versus 77% globalmente), reconhecendo que o sucesso da transformação digital depende fundamentalmente da capacitação de colaboradores.
Competição por skills em IA ameaça sucesso empresarial
A reconversão interna surge também como resposta à escassez de talento especializado no mercado: 66% dos CEOs angolanos (versus 70% globalmente) concordam que a competição por talentos em IA pode limitar o sucesso das suas organizações.
Com uma pool limitada de profissionais qualificados em Inteligência Artificial, a disputa por talento tornou-se questão competitiva crítica, levando organizações a privilegiarem a retenção e desenvolvimento de quadros existentes face à contratação externa.
Sandy Torchia, Global Co-Head of People da KPMG International, observa que “à medida que as pessoas estão na linha da frente da utilização da IA nas suas funções diárias, a sua requalificação e envolvimento tornou-se uma área de grande foco. A corrida para atrair talentos qualificados em IA só tende a intensificar-se”.
Redesenho organizacional e expansão de efectivos
Para além da transferência directa de colaboradores, 67% das organizações estão a redesenhar funções e planos de carreira para reflectir a colaboração entre humanos e IA, enquanto 53% focam na contratação activa de novos talentos com capacidades tecnológicas.
Contrariando narrativas globais de que IA conduzirá a reduções massivas de emprego, 94% dos CEOs angolanos (versus 92% globalmente) prevêem aumentar o número de colaboradores nos próximos anos, sugerindo que ganhos de produtividade tecnológica serão canalizados para expansão de negócios e não para downsizing.
A estratégia reflecte compromisso com implementação de tecnologia orientada para as pessoas, reconhecendo que “a força de trabalho é fundamental para utilizar e obter ganhos de produtividade através da IA”, como sublinha o estudo.
Baixa preocupação com resistência cultural
Apesar da profundidade da transformação em curso, apenas 20% dos CEOs angolanos (versus 63% globalmente) manifestam preocupação com o possível impacto da IA na cultura da empresa, e igual proporção (20% versus 33% global) reconhece que a relutância de alguns colaboradores em adoptar novas tecnologias representa desafio.
A baixa preocupação com resistência cultural pode reflectar optimismo sobre a facilidade de transformação ou, alternativamente, subestimação dos desafios de change management em contextos de mudança tecnológica acelerada.
“Fazer com que isto ressoe em toda a crescente diversidade geracional é outro factor crucial com o qual os CEO e líderes de pessoas estão a confrontar-se num mundo cada vez mais complexo”, sublinha Sandy Torchia, referindo-se à necessidade de equilibrar expectativas e abordagens entre diferentes gerações de trabalhadores.





