Procura institucional por títulos com maturidade de quatro e seis anos ficou aquém das expectativas num contexto de taxa BNA em 19% e inflação em trajectória descendente. Mercado privilegia liquidez em detrimento de rentabilidade de longo prazo.
O Tesouro angolano conseguiu colocar apenas Kz 4,5 mil milhões dos Kz 20 mil milhões oferecidos em leilão de Obrigações do Tesouro Não Reajustáveis (OT-NR) realizado a 9 de Outubro, uma taxa de cobertura de 22,5% que expõe a fraca procura institucional por dívida soberana de médio prazo, segundo dados do boletim oficial da Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA).
O leilão competitivo incluiu dois instrumentos: OT-NR com maturidade de quatro anos (vencimento em Julho de 2029) a uma taxa de cupão de 16,75%, que captou Kz 2,2 mil milhões dos Kz 10 mil milhões ofertados; e OT-NR de seis anos (vencimento em Agosto de 2031) com taxa de cupão de 17,25%, que atraiu Kz 2,3 mil milhões, igualmente aquém da meta de Kz 10 mil milhões.
A procura reduzida surge num momento em que o Banco Nacional de Angola (BNA) reduziu a taxa directriz para 19% em Setembro último – a primeira descida desde 2023 – numa aposta na continuidade da trajectória desinflacionista. A inflação desacelerou pelo 14.º mês consecutivo, fixando-se em 18,16% em Setembro, o nível mais baixo desde Novembro de 2023 (Notícias ao Minuto) (LUSA) , de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE).
Aparente paradoxo no mercado
O cenário configura um aparente paradoxo: apesar de taxas de cupão historicamente elevadas (16,75% e 17,25%) e de um ambiente de desinflação que favorece a rentabilidade real dos títulos de dívida, os investidores institucionais – maioritariamente bancos comerciais – demonstraram apetite limitado pelas OT-NR de médio prazo.
Especialistas apontam múltiplas explicações possíveis para o fenómeno. A preferência por liquidez num contexto de incerteza económica pode estar a levar os bancos a privilegiar Bilhetes do Tesouro (BT) de curto prazo em detrimento de compromissos de quatro e seis anos. A gestão de activos e passivos (ALM) das instituições financeiras pode igualmente estar a limitar a exposição a maturidades mais longas, numa altura em que a base de depósitos permanece volátil.
Outra hipótese prende-se com a saturação de carteiras: os bancos podem já deter posições significativas em OT-NR de leilões anteriores, reduzindo a capacidade ou a vontade de absorver emissões adicionais. A expectativa de yields ainda mais atractivos em leilões futuros – caso a pressão sobre o financiamento do défice orçamental se intensifique – pode também estar a induzir uma estratégia de espera por parte dos investidores.
Implicações para o financiamento público
A fraca adesão ao leilão coloca pressão adicional sobre a gestão de tesouraria do Estado num ano em que o Orçamento Geral do Estado (OGE) de 2025 prevê necessidades de financiamento significativas através de instrumentos de dívida interna. De acordo com o Ministério das Finanças, os títulos emitidos em leilão ao longo do ano incluem obrigações de tesouro não reajustáveis no valor de Kz 2,65 biliões.
O gap entre oferta e procura pode forçar ajustamentos na estratégia de emissão da Unidade de Gestão da Dívida Pública (UGD), seja através do aumento das taxas de cupão em leilões subsequentes, seja pela alteração do perfil de maturidades oferecidas, com eventual concentração em BT de curto prazo ou pela intensificação de emissões em moeda externa.
O BNA projecta fechar 2025 com uma taxa de juro directriz de 17,5% (SAPO) , o que sugere margem para novas descidas nas taxas de referência nos próximos meses, caso a dinâmica desinflacionista se mantenha. Tal evolução poderia, em teoria, tornar os títulos de dívida pública menos atractivos face a alternativas de investimento, exacerbando o desafio de colocação.
O contexto contrasta com a mesma data do ano anterior: a 9 de Outubro de 2024, não foram realizados quaisquer leilões de dívida pública, o que indicia uma alteração no calendário de emissões e, possivelmente, uma intensificação das necessidades de financiamento em 2025.





