As instituições financeiras angolanas estão sob uma pressão cibernética sem precedentes. Dados revelados no VIII Fórum Expansão, realizado esta sexta-feira em Luanda, indicam que os bancos nacionais enfrentam, em média, 4.409 tentativas de ataques informáticos por dia – um número que coloca o sector financeiro no centro de um dos maiores desafios de segurança digital do país.
A informação foi avançada por Hélder João, Chief Information Security Officer (CISO) do Banco Yetu, no painel “A Importância da Cibersegurança na Digitalização da Economia”. O especialista identificou como principais ameaças o phishing e a engenharia social, malware e ransomware-as-a-service, fraudes bancárias, ataques a infra-estruturas críticas e, mais recentemente, o uso de Inteligência Artificial generativa para automatizar intrusões e golpes.
Segundo Hélder João, “a cibersegurança já não é apenas um tema técnico – é um factor estratégico para a estabilidade e credibilidade do sistema financeiro angolano. A vulnerabilidade de um banco traduz-se num risco sistémico para toda a economia”.
Impacto económico e reputacional
O volume e sofisticação dos ataques levantam questões sobre custos operacionais e riscos reputacionais. Cada tentativa falhada implica investimento em firewalls, centros de resposta a incidentes e equipas de monitorização. Quando bem-sucedidos, os ataques podem provocar perdas financeiras, multas regulatórias e erosão de confiança junto dos clientes. Num país onde a digitalização bancária avança rapidamente, com milhões de utilizadores de mobile banking e pagamentos electrónicos, o impacto potencial é vasto.
Analistas de cibersegurança estimam que os custos indirectos – interrupções de serviço, reforço de seguros cibernéticos, compensação a clientes afectados – possam equivaler a vários milhões de dólares anuais para o conjunto do sistema bancário angolano. Além disso, um incidente grave afectaria a reputação internacional de Angola num momento em que o país procura captar investimento estrangeiro e consolidar a sua imagem de destino financeiro seguro.
Respostas e desafios
Nos bastidores, os bancos estão a reforçar equipas de SOC (Security Operations Center), a adoptar sistemas biométricos de autenticação e a recorrer a encriptação avançada para proteger transacções. Mas especialistas alertam que a tecnologia por si só não chega: é necessário investir também na formação dos colaboradores, criar protocolos uniformes entre instituições e melhorar a cooperação com as autoridades judiciais para punir crimes cibernéticos.
A questão torna-se ainda mais crítica à luz do avanço da Inteligência Artificial generativa, que permite criar e-mails de phishing quase indistinguíveis de comunicações legítimas e desenvolver malware mais sofisticado. “O ataque já não vem só de hackers isolados, mas de redes globais que vendem ‘crime-as-a-service’”, explicou Hélder João.
O caminho para um sistema financeiro resiliente
Para os analistas presentes no Fórum Expansão, a cibersegurança deve ser integrada nas estratégias macroeconómicas de Angola. Com a digitalização acelerada dos serviços bancários e governamentais, o país precisa de um ecossistema regulatório que inclua padrões mínimos de protecção, partilha de informação entre entidades e um regime de responsabilização claro.
“Estamos perante uma corrida entre inovação e segurança”, concluiu Hélder João. “Se quisermos uma economia digital robusta, temos de tratar a cibersegurança como prioridade nacional – tal como tratamos a estabilidade cambial ou a política fiscal”.





