“É inaceitável que ao fim de 50 anos de independência o salário mínimo esteja a rondar os 50 mil kwanzas” — alerta Alves da Rocha

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O economista Alves da Rocha classificou como “inaceitável e insustentável” o actual salário mínimo nacional, fixado em torno dos 50 mil kwanzas, à margem do Angola Economic Forum, que decorreu esta quarta-feira em Luanda.

Em declarações à Revista Outside, o académico sublinhou que a manutenção deste valor representa não apenas um entrave ao desenvolvimento económico e social, mas também um ataque directo à dignidade das famílias angolanas, que enfrentam um custo de vida crescente num contexto de inflação persistente. “Eu não consigo aceitar, não consigo perceber, como é que o nosso salário mínimo está em 50 mil kwanzas. Eu nem sei como é que as pessoas conseguem sobreviver com esse montante”, desabafou o economista, acrescentando que a situação compromete a coesão social e a confiança no sistema económico.

Segundo Alves da Rocha, o baixo rendimento disponível das famílias angolanas limita drasticamente a capacidade de consumo interno, factor essencial para dinamizar a produção nacional e estimular o investimento. “O salário e o consumo das famílias são factores determinantes do desenvolvimento económico. Sem um mínimo que permita dignidade, é impossível estimular o mercado interno”, explicou, defendendo que qualquer reajuste deve ter como referência metodologias baseadas na inflação e nas condições reais de vida da população.

O economista recordou que o Governo tem ensaiado mecanismos diferenciados, com valores de 100 mil a 120 mil kwanzas para determinados sectores, mas sublinhou que “a prática demonstra que a realidade está muito aquém das necessidades da população”, dado o desfasamento entre o rendimento oficial e o custo efectivo da sobrevivência nas cidades angolanas.

Alves da Rocha foi mais longe ao apontar que o problema do salário mínimo não é apenas conjuntural, mas estrutural, relacionado com a ausência de uma base sólida de acumulação de conhecimento científico, tecnológico e de inovação.

Para o académico, sem reformas profundas, Angola continuará a enfrentar limitações de competitividade e uma economia frágil, excessivamente dependente de importações. “É inaceitável que, ao fim de 50 anos, Angola ainda não tenha conseguido criar condições para multiplicar o emprego e valorizar o salário”, alertou.

O debate sobre salários em Angola ocorre num cenário de inflação em dois dígitos e com o salário mínimo nacional equivalente a menos de 60 dólares americanos ao câmbio oficial, um dos mais baixos da África Austral. Em contraste, países vizinhos como a Namíbia e a Zâmbia apresentam pisos salariais significativamente mais elevados, apesar de níveis de desenvolvimento económico semelhantes.

No Angola Economic Forum, realizado em Luanda entre 26 e 27 de Agosto, a questão salarial destacou-se como um dos pontos centrais do debate sobre os desafios de inclusão social e diversificação económica do país.

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