O Banco BIC em Angola, co-fundado pelo empresário Fernando Teles, está a ser “ostracizado pelo poder”, com repercussões diretas nas suas operações e nos destinos das suas filiais em Portugal e Cabo Verde. Fernando Teles, que ainda detém 37,5% do capital do banco e atua como assessor da comissão executiva, atribui esta situação a uma “guerra toda que fizeram à engenheira Isabel dos Santos”, que permanece com 42,5% do capital do banco.
A “ostracização” do Banco BIC manifestou-se, segundo Teles, que falava em exclusivo para o Jornal Expansão, na negativa de acesso à compra de divisas por três meses seguidos, de janeiro a março, uma situação “não é possível para um banco que é líder de mercado”. Enquanto o Banco BIC comprou zero divisas, mesmo tendo cerca de 600 milhões em operações de venda, outras instituições foram claramente “protegidas” e “chamadas para as fazer”. O empresário expressou o seu desconforto, afirmando que “não tá a ser bem dirigido” e que “não se pode tentar deitar abaixo um banco que é um banco líder de mercado”. Além disso, o banco não recebe as bonificações do programa Angola Investe desde 2019. Fernando Teles já alertou o Banco Nacional de Angola (BNA), a Procuradoria, o Ministro da Coordenação Económica e até o Presidente da República sobre esta situação. Ele sublinha que “não é bom para o país estarem a destruir boas empresas”.
A ligação à empresária Isabel dos Santos é o cerne do problema, de acordo com o que Fernando Teles ouviu de pessoas em instituições públicas: “O Banco Bic, enquanto tiver a participação de Isabel dos Santos, vai ser prejudicado”. Apesar das pressões, Isabel dos Santos continua a participar em todas as assembleias gerais do banco e a sua confiança como acionista “não lhe foi retirada”. Ela dá a sua opinião e manifesta desacordo, embora as decisões sejam maioritariamente tomadas por consenso, tendo votado contra as posições de Fernando Teles apenas “uma vez ou duas” em 20 anos.
As pressões relacionadas com a sua acionista principal já tiveram consequências internacionais para o grupo BIC. O Banco BIC em Portugal foi vendido ao Abanca no ano passado, uma transação que Fernando Teles lamenta ter sido “obrigado a vender”. Ele afirmou que “com a guerra toda que fizeram à Isabel dos Santos, o Banco Central Europeu [BCE] obrigou a vender”. Adicionalmente, o Banco de Portugal “pressionou-nos também para que nós (…) não pensou ficar com a sua cota”, incentivando a saída dos acionistas angolanos da Europa. Embora o Abanca tenha lucrado significativamente com a aquisição, o negócio foi imposto.
Em Cabo Verde, o BIC possuía uma Instituição Financeira Internacional (IFI) que, a par de outras, foi equiparada a offshores pelo estado cabo-verdiano. A determinação foi que essas IFIs deveriam tornar-se bancos de direito cabo-verdiano ou encerrar. No caso do BIC, optou-se pela liquidação do banco, apesar de ter “60 milhões de fundos próprios” e “não ter problema nenhum com ninguém”, num processo que Teles descreve como “pacífico” e de devolução dos depósitos.
A “crise de confiança” gerada por esta situação estende-se para além da banca. Fernando Teles revelou que, em 2018, um parceiro português, líder na agricultura em Portugal, decidiu retirar-se de Angola para investir na China devido a “problemas com a engenheira Isabel dos Santos”. Este evento levou Teles a comprar a sua quota de 50% na Fazenda Santo António, demonstrando o impacto direto destas pressões no investimento estrangeiro em Angola.
Face a este cenário, Fernando Teles expressa grande preocupação com o futuro do setor bancário e da economia angolana. O banco já fechou 20 agências, embora ainda não tenha havido despedimentos, mas se a situação persistir, “vamos fechar mais”. Ele argumenta que a banca é o “motor da economia” e que, se estiver com problemas, “a economia também não cresce”. O empresário apela ao “bom senso” e à “seriedade” por parte das autoridades, para que não se continue a “destruir empresas ou instituições que já mostraram que contribuíram muito para o desenvolvimento da economia angolana”.





